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domingo - 16/07/2017 - 09:34h

De pecados e de perdões – antes que seja noite


Por Marcos Pinto

Há um longo abismo com portas abertas estigmatizando momentos agudos, ocultos por densa cortina de feição pecaminosa, cravando o peso de uma âncora no peito.  O surto de laivos do pecado impõe o repensar de tantas lutas e lutos, que deixaram inconfundíveis pegadas no território do tempo. Não há como escapar das asas negras do infortúnio a gravitar sobre as paralelas do imutável.

Há como que um voraz embate entre a concretude do ingente pecado   e o momento impondo sobre os pecadores   uma noite que teima em se dilatar ao máximo.

Acumula-se, assim, a dimensão do sofrimento que proclama e reclama um perdão antecipado. Delineia-se um cansaço espiritual, como se o pensamento estivesse sentado na soleira do indubitável tempo.

No começo das tentações dos pecados   da   carne, assoma um silêncio farejando o céu das interrogações, arrastando ao mesmo tempo para o desabafo das confissões as pesadas sandálias dos mistérios dolorosos.

Arrastar pecados sem a certeza do perdão é   como um calçar sandálias de chumbo e caminhar em transe merencório para a abissal profundeza do autoextermínio.  Quando um sonho é grande demais e assume contornos de pecado, é preferível morrer com ele a deixar que ele morra sozinho, sem o bálsamo do perdão.   Não raro, todo pecado traz consigo a gula por um perdão. Não existe perdão sem esquecimento.

De nada adianta simular   perdão quando o coração e a mente estão regurgitando ódio e vindita.  Nunca se deve implorar perdão utilizando-se de meias verdades que criam e condicionam direções.  O singular gesto do perdão revela um misterioso e miraculoso estado do espírito, imerso em solene e sepulcral silêncio.  Simulacros de perdões não podem e nem ser vistos e lembrados como verdade imperiosa.

Os pecadores sempre trazem a detestável ostentação do supérfluo, a pequenez do espírito, a falta de escrúpulos acolitada por arrogância desmedida e deslavada.  Há pecados prolongados e perdões retardados.

Quantas   vezes deixamos que o orgulho se sobreponha sobre a necessidade do perdão.  E quando aquele que deveria ter sido perdoado falece, o devedor do perdão deixa transparecer um arrependimento tardio e sem jeito.

Quando a alma é nobre o perdão revela foros de celeridade. Existem pecados involuntários e   voluntariosos.   Às vezes, cometemos   pecados mortais sem a mínima preocupação   com o merecimento do imprescindível perdão.  Assombra-nos o pensamento em seus contornos imprecisos.

O pecado representa uma sombra, projetando os   espectros da alma, esquálidos, esvoaçantes, como folhas secas ao sabor do vento. O perdão verdadeiro enfeita a árvore da vida.  Perdoemos, pois, antes que seja noite.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

Categoria(s): Crônica

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