domingo - 13/08/2017 - 09:30h

O fim da reflexão?


Por François Silvestre

O mais grave na desumanização contemporânea não é a violência contra a espécie humana. Mesmo que essa violência seja a marca determinante desses tenebrosos tempos.

Adjetivar o tempo, por si só, já diz negativamente contra a nossa época. Negação da belle epoque.

Até a hipocrisia, “vício que presta homenagem à virtude”, perdeu a face suave da falsidade. As expressões de saudação, de apresentação ou de agradecimento cedem lugar à pressa do resmungo.

Não há encontros, há encontrões. Nem cumprimentos, só encenações. Reina um mau humor, carões e testas engelhadas, numa pressa para ir a lugar nenhum. A antipatia coletiva facilita a violência, pois cada um procura abrigar-se nas grades do egoísmo.

A solidariedade isola-se, desprotegida de motivações e argumentos. Apontar o dedo acusador justifica, na maioria dos casos, frustrações pessoais. Mesmo quando a acusação é procedente, há excessos no pudor acusatório. É como se alguém fizesse a catarse das suas culpas escondidas, ao expor à execração o alvo da sua fúria.

Fôssemos tão puros quanto parecemos na acusação, não teríamos produzido tanta impureza. Ou o que aí está, navegando em lama, não tem algo do nosso disparo? Tem e muito. É só uma questão do flagrante. Como diria Mia Couto, “todo tiro certeiro carrega algo de quem dispara”.

Somos o tempo da desvocacionalidade. Não há vocação, há escolha pelas imposições do mercado. E no caso dos cargos públicos, a vocação se consuma no contracheque.

Após a posse, começa o processo de preencher a vocação adquirida. Como ocorre no organismo ao contrair uma moléstia não congênita. Neste caso, é a moléstia de caráter que se adquire.

E esse caráter deformado vai fiando a tecedura do tecido social, que se esgarça precocemente ante a má qualidade dos fios tecidos. Teares de tapetes rotos.

Disse no início algo que parece uma estupidez. Como se houvesse dito que a violência é secundária. Pior, a violência contra a espécie humana. Não. Não é secundária. Porém, não é o mais grave. Por quê? Porque ela é consequência e não causa.

A gravidade fundamental está na causa. A decorrência é subsequente. Portanto, de gravidade inferior. Mesmo sendo tão ou mais agressiva do que a própria causa. Isso não é apenas um exercício dialético. É uma tentativa de reflexão.

Contudo, aí está outro mal do nosso tempo: a abstinência do pensar. Ninguém quer perder tempo com a reflexão. Individualmente, se você não reflete não faz autocrítica. Coletivamente, a não reflexão transforma povo em massa. E de massa vira boiada.

Quem está na boiada delega a outrem não apenas as decisões, mas a própria opinião. Não decide nem opina. Não se aprendeu a lição de Stendhal: “Se não posso mudar de opinião, ela será o meu tirano”.

Adere a partidos como a escolha do time de futebol, ainda na infância. E segue torcedor daquele time pro resto da vida. Quem age assim, e tem sido a regra, decreta o fim da reflexão.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Inácio Augusto de Almeida diz:

    E fazendo uma reflexão terminei escrevendo:
    POVO NÃO SUPORTA MAIS IMPOSTOS PARA BANCAR SUPERSALÁRIOS
    Como existe a figura do direito adquirido e não é possível a redução dos supersalários, como fazer para acabar com os supersalários sem desrespeitar a lei?
    Isto é fácil de solucionar.
    Não só os supersalários dos juízes, mas todos os supersalários.
    Basta criar alíquotas progressivas no Imposto de Renda.
    Salários acima de 20 mil, 35% de alíquota.
    Salários acima de 25 mil, 40%; salários acima de 30 mil, 45%; e assim por diante até se chegar a uma alíquota de 95% para os salários acima de 80 mil reais.
    E não esquecer de extinguir a isenção de pagamento do Imposto de Renda a todos os portadores de doença grave e incurável. Esta lei só beneficia os que têm alta renda.
    Alguém que ganha 3 mil reais e é portador de câncer se beneficia desta lei?
    Ele já é isento por ser de baixa renda.
    O que tem de gente burlando a lei com esta tal de doença grave e incurável não está no gibi. Extinta esta lei a arrecadação do governo dá um salto gigantesco.
    Mas isto não fazem.
    Mexe com políticos e pessoas importantes que recebem altos salários.
    O Povo? O povo que morra pagando impostos e mais impostos.
    ///
    OS RECURSOS SAL GROSSO SERÃO JULGADOS DEPOIS DO FIM DO MUNDO?

  2. Amorim diz:

    “numa pressa para ir a lugar nenhum” perfeito como todo texto. O que mais vejo: tô estressado! Ou será que não é falta de sincronia no tempo?

  3. naide maria rosado de souza diz:

    Como estou ficando cansativa de tantos elogios, François Silvestre, vou me manifestar com uma espécie de brado que emito quando assisto ou leio algo que me deixa em perplexidade. Com licença :
    Santo Inácio de Loyola !

  4. Amorim diz:

    Explico melhor; as pessoas estão em vários lugares ao mesmo tempo, resolvendo varias questões ao mesmo tempo e nunca estão no lugar onde esta!
    Tá claro?

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