domingo - 09/10/2016 - 11:38h

Poucos sabem viver sozinhos


Por Honório de Medeiros

Houve um tempo no qual eu morei em uma cidade pequena. Sentia tédio, principalmente aos domingos, quando tudo parava e as pessoas se recolhiam as suas casas.

Um dia me perguntaram: “como suporta viver aqui? Não há nada para se fazer.”

Depois fui para a cidade grande. Às vezes também sentia tédio, principalmente aos domingos. Menos, entretanto, pois perambulava por lugares onde pessoas se encontravam, falavam, riam, cantavam, brigavam, se deslocavam em vaivém incessante.

Tentando compreender, eu pensava com meus botões: “deve ser porque, aqui, há movimento, pois lá também existiam coisas para se fazer, embora a sós.”

“Mas não, não é o movimento, o bulício, o frenesi, uma vez que, mesmo assim, sinto tédio, embora em menor quantidade.”

“Então não é algo que está fora de mim, ao contrário, está dentro.”

“É minha alma inquieta, que se entorpece, em alguns momentos, com a aparência do algo-sendo-feito fora de mim.”

Pois a noção de que não nos sentimos entediados em lugares onde muitos estão em atividade, de que sempre há algo para se fazer, típica da e na cidade grande, é uma ilusão, entorpece nossa alma inquieta, e nos permite sobreviver à rotina.

Na verdade o tédio é uma consequência de nossa alma inquieta, viciada em não ficar a sós. Queremos movimento, cores, sons, sentir que estamos participando.

Mas quem não parou em alguma festa, por um momento, e se perguntou: “o que faço eu aqui?”.

Como somos empurrados, algumas vezes sutilmente, outras brutalmente, para participar desse convescote que é a vida comum, somos eternos inadaptados.

Poucos sabem viver sozinhos.

Poucos têm serenidade na alma.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN.

Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Jorge Mota diz:

    Professor, Honório de Medeiros, boa tarde!
    Leio sempre seus artigos, e na minha modesta opinião são excelentes. Discorrer sobre a existência humana, não é tarefa fácil e nem o será.
    “Somos e seremos eternos aprendizes deste tão enigmático Ser, que se traduz humano”.
    Jorge Mota.

  2. Marcos Pinto. diz:

    Grande Honório ! – Sempre a nos presentear com a exata tessitura dos escaninhos da alma, em convulsões revolucionárias do espírito. Suas contextuais palavras trazem, embutida, uma certeza: A de que o homem universal é apenas um avanço das forças do provinciano. Abraçaço.

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