domingo - 25/09/2016 - 13:12h

Quem vai investigar o esperancídio?


Por François Silvestre

Vi o nascimento do PT. Estava na praça, no primeiro comício da sigla nascente, em São Paulo Capital, depois de inúmeras declarações de Lula de que não pretendia ser político profissional ou filiar-se a partidos políticos.

Esse comício não foi o primeiro do partido recém-nascido, mas o foi o primeiro na Capital, após outras manifestações no ABC paulista. Lembro-me daquela noite, com imagens já meio embaçadas. Numa dessas lembranças, as vaias recebidas por alguns convidados que não se enquadravam na exigência purista da militância exigente e sectária.

Praça Craveiro Lopes. Cercanias da Bela Vista, vizinhança do Bexiga, caminho para chegar ao lado Oeste da Praça da Sé. Da pequenina travessa Japurá via-se a multidão em fúria. Não de raiva física, mas de furor ético.

O bar do Ramón, que tem destaque geográfico n’A Pátria Não é Ninguém, fervilhava. A Rua Abolição desaguava naquele mar.

Não posso dizer que registro a fala integral de Lula. Mas nunca esqueci sua explicação para desmentir a promessa de que “nunca serei político nem quero saber de partidos políticos”. O PTB de Vargas houvera sido, segundo ele, um clube de pelegos. Trabalhador não era sinônimo, nem representado, do “trabalhismo”.

E aí a justificativa para desdizer o que dissera. Para fazer o que prometera nunca ser feito. Naquele momento quem iria imaginar que aquela promessa quebrada seria apenas o feto de uma criança que nasceria robusta, chegaria à adolescência irrequieta, faria oposição com dignidade e envelheceria precocemente, com rugas e verrugas, no mesmo lodo do poder que tanto criticara.

Em política, nenhuma promessa carrega o cabelo do bigode. E Lula, naquela noite, pôs a barba completa na promissória. E a história demonstrou que o documento não foi resgatado.

Há uma hipoteca rondando a posse desse imóvel. Só a posse, pois a propriedade nunca foi do povo. Nunca foi e certamente nunca será.

O maior crime não foi misturar-se aos hábitos dos inimigos antigos, aliados na refeitura das conveniências. Aliados e cúmplices. Foi um grande mal. Mas não foi o mal fundamental.

Os aliados, também falsários da ética, já vinham dessa prática. Esperar o quê deles? Quantos deles, puristas de fancaria, estão enlameados no mesmo charco? Quase todos.

E quase todos viraram aliados. Essa prática desmentiu o discurso da Praça Craveiro Lopes, naquela noite que se embaça na penumbra de tantos erros e incontáveis decepções.

Mas repito que não foi o crime maior. Mesmo que seja o crime “preferido” dos templários, numa cruzada ética em busca de uma Jerusalém inexistente.

O maior delito foi matar a esperança. Ou retrancá-la na Caixa de Pandora. O sonho da inclusão social virou pesadelo da exclusão. Esperancídio é o nome desse crime.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. llaslo diz:

    Bravo!!! Bravissimo!

  2. naide maria rosado de souza diz:

    Esperancídio, decepção… Seja o que for , François Silvestre, fiquei muito envelhecida, encurvada. O nome da Praça…Craveiro Lopes. Conheci Craveiro Lopes, presidente de Portugal, numa visita que fez ao Brasil. Foi ao meu colégio que existia também nas terras lusas, receber uma homenagem. As alunas pequenas ficavam na frente do grupo, inclusive eu, cantando o hino de Portugal que sei até hoje. Craveiro Lopes afagou a minha cabeça. Lembro perfeitamente. E, agora, incluída em seu Artigo por causa da Praça, que tem o nome dele, envelheci cem anos…que realidade. Não é a primeira vez que o “Nosso Blog” me leva a infância. Fui uma menina muito asmática, mas meio importante. Risossssssssssssssss.

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