domingo - 25/06/2017 - 20:55h

Involução do pensar


Por François Silvestre

O pensamento filosófico, que nasceu agregado ao conhecimento científico, foi a primeira rebeldia da descoberta. Do intelecto impondo a luz para romper as trevas.

A cada descoberta de uma verdade nova, uma dúvida era vencida; e um deus abatido em pleno voo caía aos pés do caçador. Assim mesmo, dessa luta temporal entre a sombra e a luz. Uma luta de complementação, não de confronto, como o fazem os pintores.

De início, consciente da ignorância, o homem começou a identificar os sinais da ciência. Num embate em que a dúvida nascia da angústia e desaguava na descoberta.

A ciência é da essência natural, independe da perquirição humana. Porém, foi pela filosofia que o homem enfronhou-se no tecido cognitivo do misterioso mundo científico. Desfraldando a bandeira do conhecimento pelo aceiro da sua franja.

Da lição inesquecível de Teilhard de Chardin: “Deslocar um objeto no tempo, para trás, equivale a reduzi-lo aos seus elementos mais simples. Seguidas tão longe quanto possível na direção da sua origem, veremos que as últimas fibras do composto humano confundem-se com o próprio estofo do Universo”.

Chardin, padre e filósofo, perseguido pela intransigência canônica da sacristia, veio da origem filosófica de Aristóteles, e fez conexão de voo com Thomaz de Aquino. Todos construtores em cadeia, numa corrente de elos presos pela sabedoria do invisível. A invisibilidade infinita de cognição quase inalcançável, na presença universal do Cosmo.

Para Thomaz de Aquino o Universo é criação de Deus. Para Teilhard de Chardin o Universo se cria, sob a regência de Deus. E continua sob permanente autocriação. No contorno de um invólucro infinito; “sistema” pela multiplicidade, “totum” pela unidade e “quantum” pela energia.

Para os filósofos clássicos, de onde vem Aristóteles, o conhecimento é a própria criação. Dado que no escopo do conhecer pode-se aferir que até os macacos intuem que o “conjunto das bananas maduras é menor do que o conjunto das bananas”.

O primeiro conceito da palavra Deus, do protosemitico ao sânscrito, não significa aquele que cria, mas aquele que fala. “O princípio era o Verbo”…

Nós evoluímos em tecnologia, no último meio século, mais do que nos últimos quinhentos anos. Contudo, involuímos intelectualmente mais de um milênio.

Vivemos o tempo da involução pensante. Enquanto as máquinas que criamos aprimoram-se, o nosso cérebro criador regride. Tempo de embrutecimento humano, pobreza cultural, imbecilização política, feiura esportiva.

A ausência do pensar filosófico, dos tempos de hoje, implantou o reino da mediocridade. O convencimento foi substituído pela imposição. A vocação deixou de ser um impulso do talento para acomodar-se às cobranças do mercado.

Os filósofos medicaram a humanidade contra a estupidez, mas o medicamento perdeu a validade. Urge nova drogaria na caverna de Platão. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 18/06/2017 - 11:06h

A escola da vida e “a dança das cadeiras”


Por Marcos Pinto

O  tempo  deixa  perguntas, mostra  respostas  e traz  verdades“.(François  Silvestre).

O  enfrentamento  aos  desafios  cotidianos  impõe-nos  a  certeza  de  que  temos que  nos  escudar  em  fatos  oriundos  de  experiências  concretas, que   nos  levam  a   transpor  o  limiar da porta  da  ”Escola  da  Vida”, adentrando-a  de  rijo.   É determinante  a  assertiva de  que as experiências    acumuladas fornecem  subsídios  eficazes  para escapar da   perspectiva  de resultados  desgastantes  e totalmente  divorciados  da  vitória tão  almejada.

Há  sempre  uma  contenda  voraz   entre  o  que  pensamos   e   as  nuances  do  porvir.  Não  adianta  se  deixar  dominar   pela   fugaz  ilusão  de  que  não  haverá  um  brutal  e  massacrante  enfrentamento  a  todos  os  tipos  de dificuldades,  desapontamentos, ingratidões  e  injustiças.

O  simples  fato  de se  ter  e  de  se  ostentar  o   “Diploma  da  Vida”   tutelado  pelas   decisivas  experiências  vividas  não  lhe  confere   a  certeza  de  estarás  imune  aos  virulentos  ataques  dos  invejosos  e  pérfidos, sempre  prontos  para  assumir  o  controle  das  ações, derivando-a  para  uma  vitória  sem  louros  nem  glórias.

Nesse  diapasão  materialista  e  asqueroso, há  um   agitação  constante  na  coreografia  desgastante  da  ”Dança  das  Cadeiras”, sob  um  eco  ensurdecedor  da  desconfiança  e  do  descrédito.  O  pior  reside  na triste  constatação  de  que  pessoas com  maior  vínculo  sentimental  forjam  nos  bastidores  da  inveja  e  da  sordidez   toda  sorte  de  maldades, com fito  único  de  nos impor  restrições  aquisitivas.

Agrava-se  com  o  fato  de  que, raramente, essas  pessoas  invejosas  não  apresentam  contendas  íntimas  de  remorsos, pela  virulência  e  maldade  destiladas  de  forma  vil  e  covarde.

Observa-se,  com  veemência, nos  olhares  indagadores  dos nossos  circunstantes, que  há  uma  certa  impaciência  generalizada, exercendo  sobre  nós  uma  mistura de   medo  e  fascínio.   O  poder  de  mando  sobrepuja  as  virtudes  presentes  no  ser   humano, deixando  escapulir  pelas  frestas  da janela  do  tempo  a  certeza  de  que  só   Deus  detém  o  poder  eterno  e  sem   máculas.

Assiste  a  plenitude  da  razão  ao  saudoso  poeta  Apolônio  Cardoso, quando  cunhou  a  célebre  frase: “De  tanto  ver  os  burros  mandando  nos  homens  de  inteligência,  às  vezes  fico  a  pensar  que  burrice  é  uma  ciência”. Tal  realidade  traz  embutida  um  asco  imensurável.

Deus  é  infalível  na  coreografia  da  ”Dança  das  Cadeiras”.  Hoje,  Chefe.  Amanhã  subordinado  ao qual  humilhou  amargamente.   A  boa  receita  divina  inclui  controle  da  vaidade  e  da  ansiedade.  Assoma-me,  outra  vez, a   sentença  de  que  a  cordialidade  interativa  sempre  emoldura  um  demorado  adeus.

Delineia-se  o   perfil  dos  ocupantes   na  ”Dança  das  Cadeiras”, a  maioria  procurando  sair-se  com  anel  de  ouro  em  tromba  de  porco, chafurdando  na  lama, mas  brilhando  como  se  limpo   fosse.  Há  pessoas  que,  fora  de  sua  função, guarda  mais  alívio  do que  saudade.

Hoje, assume-se  mais  obrigações  com  frivolidades, fragilizando-se  pelos  açoites  da  alma  doentia.  Predomina  um  estado  de angústia  diante  o  incerto  porvir.  Recuso-me  a  perlustrar  a  pequenez  do  espaço  mundano.

Marcos Pinto é advogado e escritor

Categoria(s): Artigo
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domingo - 18/06/2017 - 09:12h

Justino


Por François Silvestre

Dos recrutas da Bateria de Serviços, do regimento de Obuses, naquele ano do serviço militar, um merece destaque pela compleição humana antagônica a qualquer fisionomia de enquadramento militar.

Analfabeto, indisciplinado, desligado. Até no andar ele negava a “elegância” militar. Andava balançando-se. O que o fez ganhar o apelido de “Carnaval”.

E assim era chamado, até pelos superiores. Justino passou mais tempo hospitalizado ou preso do que no serviço regular.

Gonorreia, cavalo de crista, cancro. Ou prisão, pelas voadas nos dias de guarda ou reforço à noite. Usuário de maconha, numa época em que o baseado criava estigma. Ser chamado de maconheiro produzia briga na certa.

Tudo isso numa personalidade quase infantil. Sem qualquer resquício de culpa.

Expulsá-lo seria a confissão de má avaliação no recrutamento, coisa que traria mais problemas para o comando do que para o recruta mal avaliado. A expulsão cria uma mácula para o comandante, que o atormentará pela vida e prejudicará suas promoções. Só isso pode explicar a permanência de Justino até fim do serviço militar.

O sargenteante, Serafim, descobriu que “Carnaval” não sabia cantar o Hino Nacional. Encarregou a nós, recrutas da BS, para ensiná-lo. Tentamos, em vão.

Diante disso, orientamos para que ele ficasse apenas mexendo os lábios, nas formaturas. Numa dessas, Serafim aproximou-se de Justino e descobriu o engodo.

Chamou-o à sargenteação. Mandou-o cantar o hino. Saiu algo mais ou menos assim: “Ouviro no ipiranga um povo retumbante”. O sargento, irado, mandou parar. “Aqueles bostas nem pra isso servem”. Referia-se a nós.

Foi aí que Justino perguntou: “Sargento, o qui danado é retumbante”? Serafim quase tem um infarto.

Num serviço de cortar mato, eu fui atingido por um recruta. Usávamos a estrovenga para cortar o capim. Uma espécie de enxadeco invertido, com a Lâmina para frente, ao contrário da enxada.

Num giro desastrado, Vanildo girou a estrovenga que me cortou o ombro direito e me abriu um talhe na cabeça. Cai sangrando. Aperreio do próprio recruta e do Sargento.

Levado para o Hospital Universitário, (Onofre Lopes) os cortes foram suturados. Daí fui para o HGuN, Hospital da Guarnição de Natal, vizinho do 16/RI.

Numa enfermaria, com recrutas de todos os quartéis, quem estava lá? Justino. À noite, ele fugia pros lados do Bosque dos Namorados, fazíamos a vaquinha para comprar cigarros. E maconha pra ele.

Numa dessas noites, ele não voltou. Por volta das nove horas da manhã, confusão no Hospital. Era Justino que chegava dirigindo um ônibus da linha Alecrim/Santos Reis. Ele disse que estava ajudando um colega doente.

Numa das paradas, sobe o Cabo Damasceno, da nossa Bateria. O cabo o prendeu e mandou que ele levasse o ônibus para o HGuN. Com reclamação dos passageiros. Mais uma vez Justino na prisão. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Crônica
sexta-feira - 16/06/2017 - 07:28h
Por François Silvestre

Wilma de Faria – uma crônica vitoriosa


Por François Silvestre

Disse um poeta, na sua lira, que “a morte não separa ninguém, quem separa é a vida”. Soube ainda de madrugada, pela Coluna do Herzog, de Carlos Santos, do falecimento da ex-Governadora Wilma de Faria.

Veio-me à memória um episódio da campanha para o Governo do Estado em 2002, em que ela foi candidata e vitoriosa.

Wilma: no palanque, governadora, em 23-07-06 (Foto: arquivo)

Dormimos em Martins, e após o café da manhã em Cajuais da Serra, descemos para uma movimentação em Umarizal. Fomos no meu carro, em cujo trajeto eu alertei para possíveis reações negativas contra ela. Wilma disse: “Não se preocupe. Estou acostumada”.

Faríamos uma caminhada pela feira e, se possível, um comício. A feira de Umarizal espalha-se por vários lugares da cidade. A primeira parada foi na feira da Rua Nova, onde há um pequeno mercado de carnes e vendedores ambulantes de cereais e legumes. Além de bancas com bebidas e comidas. Tem de tudo.

Ao descermos, caminhamos para o meio do burburinho. Aí, minha surpresa. Até pessoas que diziam não votarem nela trataram-na com gentileza. Ela foi cumprimentando as pessoas e o aglomerado aumentando.

A coordenação da campanha entendeu que a ocasião se prestava a um comício relâmpago. Os candidatos, inclusive a senador, Ismael Wanderley, decidiram que só falaríamos Wilma e eu. Não havia palanque.

Um feirante ofereceu sua camioneta, com sacos de feijão, para substituir o palanque. E assim foi. Não poderia haver um palanque mais sertanejo. Em cima do feijão, na feira de Umarizal, falamos Wilma e eu.

Tempos depois, ela me disse: “Foi um dos momentos mais bonitos da campanha”.

Que lhe seja leve a terra da sua terra!

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Categoria(s): Crônica / Política
  • Repet
terça-feira - 13/06/2017 - 21:56h
"Beleza?"

Falta respeito, Robinson!


Por François Silvestre

O governo Robinson Faria (PSD) não tem um milímetro de respeito pelo servidor do Executivo, que ele chefia e humilha. Todo mês tenta esconder o inescondível. Isto é, a inadimplência com o servidor.

Não precisava, se houvesse respeito, divulgar essa cretinice de parcelamento, inconstitucional, fora da Lei, com a cavilação safada de percentuais (veja AQUI).

Fizesse a merda sem expor o mau cheiro. O único percentual confiável é de um governo cem por cento inútil. E velhaco, com o servidor a quem prometeu respeito no discurso de posse.

Lembra, Robinson, do discurso de posse?

Eu me lembro muito bem. E você sabe que eu me lembro.

“Beleza”?

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Categoria(s): Artigo / Só Pra Contrariar
segunda-feira - 12/06/2017 - 19:51h
RN

O Elefante de Troia!


Por François Silvestre

Pergunta pertinente:

–  Os gregos estiveram por aqui, na época das capitanias?

–  Não sei. Talvez. Por quê?

–  Porque o Rio Grande do Norte é um Elefante de Troia!

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 11/06/2017 - 06:17h

Semântica de cada tempo


Por François Silvestre

Cinza. É a cor da pintura nova do presente velho tempo. Nada de saudosismo. Nem da surrada fala dos avós, “no meu tempo num era assim”.

Cada tempo, outra fisionomia. Nem o espaço é o mesmo no tempo diferente, mesmo que seja o mesmo lugar não será mais a mesma geografia.

Uma coisa é absolutamente inquestionável: vivemos o tempo sublime da mediocridade. Nível medianamente posto abaixo da linha d’água.

Mediocridade política, intelectual, cultural. Até a honestidade adjetivou-se como “um prêmio” e não uma obrigação natural. E por ela, em seu nome, castas se empanzinam do marajanato mais cínico ante a miserável remuneração do rebanho.

Republicano era o adjetivo de partidos políticos, da semântica latina da coisa pública. Virou prostituição da semântica moderna, onde trampolineiros habituais usam-no para fazer faxina na sujeira dos seus discursos.

Legitimidade era o alicerce da Lei, que precisava legitimar-se para ingressar no estuário da legalidade. Legalidade era consequência, na forma da lei, legitimamente constituída com vistas ao bem público.

Diferentemente do agora, onde o embalo de cada onda ou o interesse de cada segmento produz as leis que lhes interessam. Ou lhes acobertam. Ou atropelam os mesmos interesses dos oponentes. Ou sempre foi assim?

O fascismo vestiu-se de roupagem suave, puritana, inofensiva. Os fascistas modernos não fazem anauê nem desfilam fardados. São macios, “democratas e republicanos”. O seu discurso é irrespondível, pois se agasalha no estuário da hipocrisia do senso comum.

Negociação política virou escracho sem qualquer pudor. Popular virou sinônimo de imbecil. O fórum é a casamata das vaidades ou das vinganças. Onde o processo é mais importante do que a vida ou a liberdade. Superior à Lei.

Pensão era nome de hotel, no interior. Igreja era lugar de orações. Norma, sinônimo de lei. Estado era sociedade organizada. Segurança, direito natural. Escola transmitia Educação. Cultura era alimento do espírito. Ladrão era termo ofensivo. Matar gente era crime.

Ásperos tempos. Talvez não tanto quanto os tempos de Brecht. “Vivi num tempo de guerra, sem sol. Comi minha comida no meio da batalha; vocês não esqueçam esse tempo”.

Num tempo desses dá pra renegar Satanás? No leito de morte, Voltaire recebeu a visita do pároco da sua freguesia. Perguntou o velho padre: “Voltaire, você renega Satanás”? O filósofo respondeu baixinho: “O senhor não acha que essa é uma hora muito inconveniente para fazer inimigos novos”?

Pois bem. Esse é o tempo da “nova” semântica. De conceitos velhos repintados com demão de farsa. Do cinismo engalanado para o festim de Belsazar. A cretinice substituiu a ignorância. Se abrirmos a Caixa de Pandora nem a esperança ficará presa e salva. Voará nas asas escuras de um morcego cego. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
quarta-feira - 07/06/2017 - 09:18h
Opinião

O ocaso oligárquico?


Por François Silvestre

As oligarquias no Rio Grande do Norte estão presentes desde que a Capitania foi ofertada a João de Barros e ele declinou do presente. Nunca apareceu por aqui. Não declarou a declinação nem confirmou a aceitação.

Deu pouca importância ao “prêmio”.

Do Governo-Geral ao Império. Da Monarquia à República. Dos velhos ao novo tempo, por aqui o poder sempre foi resolvido no inventário dos herdeiros. Famílias e seus agregados. Grupos fechados e propriedade privada do poder “público”.

Mais recentemente, duas dessas famílias se revezaram no mando de campo. Nenhum adversário conseguiu derrotá-las. E quando algum, na exceção, ganha uma, é também membro de outra sub-oligarquia. Foi sempre assim.

Porém, agora parece que as oligarquias do presente começam seu ocaso. Derrotadas nas urnas? Não. Abatidas em pleno voo, por atiradores das suas casamatas.

Os cúmplices das trampolinagens conseguiram o que adversários e críticos nunca imaginaram conseguir. Quantas dessas famílias estão hospedadas no desassossego da suspeição? Todas.

Absolutamente todas.

E o Sol vai se ponto no lado Oeste do Potengi.

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Categoria(s): Artigo / Opinião / Política
  • Repet
terça-feira - 06/06/2017 - 21:26h

Na dúvida, a Sociedade


Por François Silvestre

A dúvida, no Direito Penal, favorece o réu. É uma conquista principiológica das garantias da dignidade humana.

A presunção de inocência deita-se no estuário desse princípio. É uma prerrogativa abstrata extensiva a todos os Direitos? Não.

No Direito Administrativo, a admissibilidade de culpa a ser julgada, favorece a sociedade. E só após o cotejamento de provas e fatos, o réu merecerá o benefício da dúvida.

No Direito Eleitoral, a suspeita de culpa protege a sociedade. O pretenso candidato é culpado da acusação formal até prova em contrário. O problema é que, no Brasil, não se cuidou disso. Negou-se à cidadania a presunção de inocência e permitiu-se candidaturas a todo tipo de suspeição.

O pequeno é culpado, com obrigação de provar a inocência. O grande é inocente, mesmo roubando às escancaras.

Depois da merda estabelecida, os responsáveis por essa esculhambação querem refazer o esgoto que implantaram. Agora é só viver as Mil e Uma Noites, adiando a execução dos acusados.

Saída? tem: Constituinte Originária. Com candidaturas avulsas, sem candidaturas de suspeitos, com proibição do corporativismo das Castas e quarentena dos Constituintes.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 04/06/2017 - 14:24h

Teatro de horrores


Por François Silvestre

País do futebol, samba, jeitinho, frevo, carnaval, hipocrisia moral, frivolidade religiosa, mungangas e trapaças, das contravenções consentidas, do complexo de inferioridade, da geografia ímpar e da historiografia distorcida.

Somos tudo isso. Democracias de intervalo entre ditaduras criminosas. Também somos isso. Portadores de ingenuidade marota, com método. Espertos no secundário, bobos no fundamental.

Somos incultos e ousamos fazer chacota de quem estuda. Sábio, aqui pra nós, não é o estudado. É o que “vence na vida”. E vencer na vida é demonstração ostensiva de fortuna, vida boa e esbanjamento.

Os estudiosos da nossa índole, na sua quase totalidade, optaram por análises superficiais e conclusões generosas. Geralmente certeiros nas análises, mesmo superficiais, e incertos nas conclusões, mesmo aprofundadas.

Sérgio Buarque viu bondade originária, que produziria índole pacífica. Não precisa muito esforço para se negar essa avaliação. Gilberto Freyre abasteceu-se de assertivas prováveis para emitir conclusões improváveis. Veja-se o caso da sua conclusão sobre a frieza do índio macho e facilidade de acesso ao nu da índia fêmea, que atraíra os navegantes.

Daí ele concluir a importância maior da índia fêmea sobre o índio macho na formação do nosso povo. A assertiva é verdadeira; porém a conclusão é falsa. Nem o índio era frio nem os navegantes vinham de terras pudicas. O índio não era frio, era natural. Desprovido da sensualidade erótica dos europeus. Se os navegantes quisessem erotismo, ficariam na Europa. Lá era o paraíso da putaria.

Darcy Ribeiro optou pela antropologia do otimismo, na crença de um futuro brilhante resultante da miscigenação. Decantava argumentos com base no resultado de um povo do porvir, que sairia de uma mistura ímpar na história da humanidade.  A naturalidade do índio, a espiritualidade do negro e a tecnologia do europeu.

E cada um desses vindo de outras misturas antigas. Alanos, suevos, godos, visigodos, árabes, latinos, mouros. Moçambicanos, bantos, haussás. Guaranis, tupis, nuaruaques, carijós, aimorés, marajoaras. Somados aos imigrantes mais recentes.

Euclides da Cunha, numa obra fenomenal, expôs a antropologia da resistência. Fixando sua observação num tipo humano, geograficamente localizado, capaz de reincidir, com abnegação, no confronto a todo tipo de adversidade. Não teve pretensões científicas, mas acabou produzindo ciência. Além da beleza literária de uma denúncia edificante.

Manoel Correia de Andrade, Rui Facó, Josué de Castro, Caio Prado, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo e outros cuidaram da índole, costumes, tradições.

Ninguém conseguiu prever o atual teatro de horrores.

Ladroagem, violência, intolerância. Antropologia de símios bípedes. O futuro certamente terá vergonha do nosso presente.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
sexta-feira - 02/06/2017 - 10:00h
O outro lado

A mentira oficial do marajanato


Por François Silvestre

A televisão platinada denuncia hoje a impunidade oficializada, com crimes sem apuração e sem instauração de inquéritos. Quem é responsável pela instauração dos inquéritos? O Ministério Público. Isso mesmo.

É o responsável direto pela impunidade. E foi ele mesmo quem arvorou-se dessa incumbência. Lembra da PEC-37? Se não, vou lembrá-lo. Essa “peque” dividia com a Polícia Judiciária a competência dos inquéritos.

O MP não concordou e fez uma campanha caríssima, de repercussão nacional, dizendo que a “peque” era a consolidação da impunidade.

O MP ganhou, ficando com ele a iniciativa privativa dos inquéritos. E a população perdeu. Paga salários e vantagens de marajás a Procuradores e Promotores para quê? Para que eles cuidem exclusivamente dos crimes de colarinho branco, relegando à impunidade os crimes contra a vida.

Põem-se corruptos na cadeia e deixam na rua assassinos e assaltantes, matando gente como se matam ratos. Punição contra homicídios não produz holofotes.

A luminosidade midiática só alcança os “operadores” das “operações”, com direito ao ridículo espetáculo das entrevistas coletivas.

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Categoria(s): Artigo / Política
domingo - 28/05/2017 - 07:10h

Adiamento irresponsável


Por François Silvestre

Estamos irresponsavelmente adiando o inadiável. Postergando o impostergável. Acobertando o inacobertável. Camuflando o inescondível.

A ordem institucional nascida em 1988 esgotou-se. Exauriu-se. Atrofiou e padece de infecção generalizada, septicemia que paralisa poderes, órgãos e gestões.

Essa conversa de que as Constituições devem envelhecer para consolidar democracias não se refere à nossa cultura político-institucional. Somos, os latinos dessa América, sociedades movidas pela transitoriedade.

É da nossa tradição. Do nosso jeito de ser. Pois que sejamos o que somos e não o que são os nossos dessemelhantes.

O Brasil é um país ainda experimental. Em formação de povo e de instituições. Nossa História se faz em ciclos e não em amadurecimento continuado. Um ciclo morreu. Que nasça outro. Como a morte e coroação nas antigas dinastias.

Dizia Sartre que o Direito e a Moral não determinam as relações sociais, cujos matizes têm causas nas condições econômicas. Mas acentuou que tanto o Direito quanto a Moral exercem uma ação de retorno na infraestrutura, que muitas vezes você pode julgar uma sociedade pelos critérios morais e jurídicos que ela estabeleceu.

Há, no país, um esgarçamento político tão visível e marcante a influenciar negativamente a economia, que você fica na dúvida para localizar o que é causa ou consequência.

O esgarçamento institucional, acima referido, começa a tomar contornos fora do “controle” estabelecido. Os privilégios desqualificam o poder de controlar. E a pobreza retornando à condição de miséria.

A cada adiamento da solução mais simples, e por ser simples a mais eficiente, o esgarçamento institucional vai aprofundando o abismo.

A falta de credibilidade do poder “constituído” escancara-se. A falta de legitimidade de quem combate esse “poder” retira a chance de solução pelas vias “normais”.

Pelo tocar do comboio, logo teremos desobediência civil generalizada. Num quadro de economia em processo falimentar, descrédito político, bagunça institucional, e confusão de prerrogativas, quantos serão “obedientes”? E quando essa desobediência generalizar-se quem vai controlar?

A superação de um ciclo é o nascimento do ciclo novo. E isso só será possível com a feitura de nova ordem institucional. Pela força de uma Constituinte Originária.

Exclusiva. A ser dissolvida após a promulgação da carta Constitucional. Quarentena dos constituintes, proibidos de participarem, como candidatos, nas eleições seguintes e gerais que formarão o novo poder constituído.

Com candidaturas avulsas. Com isso, as corporações e entidades da sociedade civil, não profissionalmente politizadas, sem o corporativismo da hipocrisia atual.

Qualquer outra saída será remendo, no rasgão da estopa.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
sábado - 20/05/2017 - 09:04h
JBS no RN

Só com Plasil


Por François Silvestre

Ao ler o relato do “empresário” que diz ter comprado a Caern, compra feita na “folha”, como se diz no Sertão, quando alguém compra o resultado do roçado antes da colheita, dá sensação de nojo.

Como diria Aluísio Lacerda: “Meu Deus”!

“Vamos indicar um Secretário de Estado para acompanhar o processo, pois o senhor não é muito confiável”, diz o “empresário” corruptor ao candidato a governador.

“Lá, os senhores terão o que quiserem; mas eu preciso ganhar essa eleição e o meu pai também precisa ganhar essa eleição”, diz o filho do candidato, também candidato.

Só resta torcer pra que seja tudo ficção. Mas se não for, só dá pra ler tomando Plasil.

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Categoria(s): Artigo / Política
domingo - 14/05/2017 - 09:18h

“A última flor do Lácio”


Por François Silvestre

Vivemos provavelmente os tempos do colonialismo cultural mais acentuado da história dos povos.

É bem verdade que não é um fenômeno novo. Em todas as conquistas militares ou de colonizações, o colonialismo cultural sempre fez parte do pacote de dominação. Ou quase sempre. No caso da dominação árabe na península ibérica, houve uma exceção. Os nativos continuaram a professar suas crenças e preservar sua cultura.

O Brasil deixa-se colonizar culturalmente há muito tempo. É preciso ver que há diferença entre aculturação e desculturação. Na aculturação ocorre uma troca entre as culturas que se misturam. Caso exemplar é o sincretismo umbanda-catolicismo que se deu nas relações dos vindos da África com os nascidos daqui. Nesse caso, não há colonialismo cultural.

Outra coisa é a desculturação, quando uma cultura imperial impõe seus modos sobre a fraqueza da cultura invadida. O uso e abuso da língua inglesa, no mundo de hoje, é o exemplo mais nítido da desculturação.

E me traz à memória o diálogo de Próspero e Calibã, n”A Tempestade”, de Shakespeare: Diz Próspero: “Eras uma figura ignóbil e eu te dei compleição humana”. Calibã responde: “Mas a ilha era minha e tu ma tomaste”.

Próspero argumenta: “Mas eu te ensinei a minha língua”. E Calibã rebate: “No que a mim só serve para nela poder amaldiçoar-te”.

Nos tempos de hoje nem para a maldição dos dominadores a língua serve. Serve muito mais para a louvação. Para o embuste. Para consolidar a dominação, sob o manto roto do “progresso” e da globalização. O Globo são os outros. Estou falando do planeta.

A última flor do Lácio” de que falou Olavo Bilac, onde Gil Vicente deu o tom da morfologia e Camões desenhou o esqueleto sonoro da sintaxe, vem sendo maltratada pelos nativos; deslumbrados com a luminosidade econômica das culturas alheias.

O jeito de falar ou escrever na literatura comporta “agressões” à língua, na medida do talento. Não se configura erro.

Contudo nos textos técnicos, opinativos, sobre qualquer assunto, a escrita que agride a língua não é justificável. Na televisão, dando notícias, ou comentando o noticiado, é preciso respeitar a língua. Não se faz literatura em noticiários. Comentem-se erros. Alguns de transformar os ouvidos em penicos.

Os pobres verbos sofrem a diabo na boca dos repórteres. “Houveram atritos”, no lugar de houve. “Fazem dez anos”, no lugar de faz. “Ele reaveu o carro roubado”, no lugar de reouve. “O governo interviu”, no lugar de interveio. “A cartomante preveu”, no lugar de previu. “Se o governo propor”, no lugar de propuser. E por aí vai. Um horror…

Não se cobra pureza linguística nem chatice de regras. Não. O que se cobra é o mínimo de respeito com a língua em que, ao rezar, espantávamos fantasmas, na infância.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
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quinta-feira - 11/05/2017 - 20:58h
Lula perante Moro

O desespero


Por François Silvestre

O depoimento de Lula foi recebido com naturalidade pelo Juiz Sérgio Moro. Também por vários veículos da imprensa, inclusive de direita. Porém, um veículo de comunicação, nobre, desesperou-se. A Globo News.

Sou telespectador deste canal. Nunca tinha visto o seu elenco, mais credenciado, de semi-gênios, tão esbaforidos. De ventas esfoladas, quase cuspindo na câmera, para desmerecer ou refutar as respostas de Lula.

Nem os promotores ficaram tão irados quanto a Globo.

Lula acertou no cabelouro da Globo, como o matador de boi. Não sou eleitor de Lula, mas fico rindo dos seus inimigos.

Incompetentes.

O Ministério Público não provou a materialidade desse crime. A Globo é tão desonesta quanto as empreiteiras. Desde a Ditadura.

Faltou Lula oferecer o triplex, por preço vil, aos presentes. Desde que pudessem transferir o imóvel, como compradores, provando a propriedade do vendedor.

Propriedade imóvel prova-se com escritura pública, registrada. O resto é política ou patifaria.

O excesso de acusação na pressa de atingir o acusado retira o alcance mínimo da verdade.

Lula é culpado ou inocente? Não sei.

Porém, a menos que se invente outra consciência jurídica, a dúvida protege o réu.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 07/05/2017 - 09:42h

A mentira-mor


Por François Silvestre

Reformar, no Brasil, não é apenas uma mentira. É a mãe das mentiras. A mentira-mor da nossa farsa. Agrária, tributária, política, previdenciária, tudo embuste. Meia-sola institucional.

Papai Noel de ilusão, defronte da garotada, que animada pela festa prefere fazer de conta ser de fato o velhinho com um saco cheio de presentes saídos da imaginação, e não do bolso dos parentes. Nas “reformas”, do bolso do contribuinte.

Os enganadores precisam da fé dos enganados. E fazem desse mercado de trocas uma acomodação de interesses.

Sobre as reformas de faz de conta há uma lição literária que resume como arquétipo as outras imitações. “Il Gattopardo” de Giuseppe Tomasi de Lampedusa.

O autor trata da decadência da aristocracia siciliana, durante o Risorgimento italiano, quando as lutas de unificação sinalizavam para uma nova ordem política, social e econômica.

O resumo da obra se dá no diálogo entre os personagens Don Fabrizio, príncipe decadente de Salina, com o sobrinho Tancredi, picareta príncipe de Falconeri. “É preciso que tudo mude, para que fique tudo do mesmo jeito”. Visconti adaptou a obra para o cinema, com Burt Lancaster, Alain Delon e Cláudia Cardinale.

O Brasil conseguiu superar a lição de Lampedusa. Aqui nem se muda nada para que tudo continue como sempre foi. E não raramente para pior do que era.

O golpe republicano apenas transformou a aristocracia monárquica em aristocracia republicana. Não foram os republicanos históricos que assumiram o poder. Quem tomou conta das decisões foram os próceres da Monarquia, agora republicanos.

O movimento de 1930 derrubou a República Velha sob o comando de um ex-ministro do governo decaído. E os antigos aliados do regime velho viraram sustentadores do regime novo.

A redemocratização de 1945 foi sustentada pelos mesmos sustentadores da ditadura Vargas. E o primeiro Presidente da nova ordem fora o avalista militar da ordem antiga.

O golpe de 1964 foi endossado pelos mesmos que se serviam do governo deposto. Partidos e imprensa. Os partidos foram extintos e a imprensa levou pé na bunda.

Ao cair a Ditadura, não foram os seus inimigos que assumiram o poder. Foram os seus aliados. Tancredo Neves negociou com militares e políticos que sustentavam o regime de violência. Quem assumiu o poder foi José Sarney, acólito político da Ditadura.

Lula representava o antimalufismo. Onde estão? Do mesmo lado, em todos os sentidos.

Collor foi a encarnação do antilulismo, o instrumento que evitou naquele momento a vitória do barbudo que assustava empreiteiros e classe média alta. Onde estão? Do mesmo lado, em todos os sentidos. Os empreiteiros, antes assustados, aliaram-se a Lula e ficaram íntimos. Papão e papados foram papar juntos.

No Brasil, a geografia fotografa Deus e a pátria revela Macunaíma.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
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quinta-feira - 04/05/2017 - 23:20h
Sei...

Ciço Cão casou a filha


Por François Silvestre

Foi uma festa com o abate de três bodes, dois patos, um galo e um porco. Cachaça da Malhada Vermelha, rabo de galo e conhaque da alcatrão. Gente muita, que encheu o alpendre. Ciço Cão esnoba a riqueza que tem.

“Se esse casamento não durar eu faço outro. Tem sempre um rapaz sobrando e precisado, que a menina Petronila pode comprar”. E riu, para ser fotografado por Evaristo Bunitim, o fotógrafo oficial da Fazenda Bestocê.

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Categoria(s): Crônica
segunda-feira - 01/05/2017 - 23:20h
Só alegria

Miserável povo, inescrupulosos líderes


Por François Silvestre

A cobertura sobre o casamento da filha de Silvio Santos com o deputado Fábio Faria (PSD) foi um festival de ostentação. Antes que algum assalariado de direita faça a defesa de que o dinheiro é deles e não é da conta de ninguém, eu também reconheço isso.

Beto Rosado e esposa Anne Catherine prestigiam Fábio e Patrícia Abravanel em casamento (Foto: redes sociais)

Porém, entretanto mas porém, a festa não é tão privada assim não. O dono da casa e do SBT possui uma concessão pública de televisão. O que o obriga a respeitar a miséria do povo que paga sua televisão e seu baú.

O genro do dono da concessão é deputado federal e filho de um governador de Estado.

Obrigado a respeitar a miséria financeira do Estado que representa, mergulhado na insegurança pública sem controle, nos salários fatiados dos servidores, na saúde inexistente e na educação sucateada.

Ostentar, numa hora dessas, pode até não ser desonesto. Mas é um escárnio.

O povo sofrido e desrespeitado banca a festa pomposa.

Pelas concessões públicas e pelos cargos eletivos. Miserável povo, inescrupulosos líderes.

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Categoria(s): Opinião / Política
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domingo - 30/04/2017 - 09:00h

A “federação” de capitanias


Por François Silvestre

O Brasil não foi e não é uma federação.  O que é uma Federação? É uma União política, republicana, formada por membros autônomos, que possuem Constituição própria e legislação específica. Cuja vigência e eficácia, no seu território, tem prevalência sobre as leis gerais da União, à exceção da Constituição Federal.

Qual desses conceitos se aplica, na prática, ao Brasil? Nenhum. E todos, só que teoricamente acanalhados.

E qual órgão “constitucionalmente” instituído deve cuidar da existência da federação, zelar por sua manutenção e eficácia? O Senado Federal. A falsidade nasce na não existência da federação e se consolida na inutilidade do órgão protetor.

O Senado era uma nobiliarquia imperial formada por sustentadores do Império. Ricos que mantinham a família real e sustentavam os influentes protegidos da Casa de Bragança.

Os senadores eram eleitos pelas províncias, mas só assumiam o posto, vitalício, por acatamento do imperador. Casos houve em que a província elegia o senador e não era nomeado pelo imperador. Um exemplo: José de Alencar, eleito pela província do Ceará, não foi nomeado, sob a desculpa de ser jovem. Exatamente por quem foi imperador aos quinze anos.

Com a república, o Senado sobreviveu. Era preciso salvar os ex-próceres da Coroa, republicanos novos. De vitalício, virou quase. A mesma pompa e a mesma inutilidade.

A aristocracia rural e a atividade comercial urbana, sustentáculos do império, tomaram as rédeas do novo regime.

Rui Barbosa, Campos Sales, Bernardino de Campos, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Prudente de Morais, Deodoro da Fonseca, Francisco Glicério eram todos próceres do império. Eles e mais outros. E quem ficou fora das rédeas executivas foi arquivado no Senado.

É essa instituição, caríssima e inútil, que guarda a inexistente federação. Tudo de faz de conta.

São Paulo e Minas dominaram a “federação” após o golpe republicano, durante quatro décadas.

Com o golpe de 1930, falsamente chamado de revolução, morreu a república velha. Nasceu a federação? Coisa nenhuma. O Estado Novo sepultou o morto-vivo. Ou natimorto. Getúlio queimou as bandeiras dos Estados e aboliu seus hinos. Era a declaração oficial de que “essa merda nunca existiu”.

A ordem constitucional nascida em 1946 começou a preparar o amadurecimento institucional.

Com todos os defeitos da nossa formação, foi o único período da nossa história que mostrou a cara brasileira do seu povo. E caiu pelos seus méritos e não pelos defeitos.

O golpe de 64 acampou a “federação” nos quartéis. Igual ao império, só sobreviveram os obedientes ao poder dos coturnos.

E quando caiu, fê-lo em conluio com os que assumiram o poder e o repassaram aos seus descendentes. São as atuais capitanias.

E não há federação entre feudos saqueados e falidos.

mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
sábado - 29/04/2017 - 21:25h
Constituinte Exclusiva

A simplicidade do complexo


Por François Silvestre

A proposta de uma Assembleia Nacional Constituinte não tem nada de heroico, complexo ou pomposo.

O fato de que a Constituinte de 88 promulgou artigos não votados ou modificados não desmerece uma Constituinte a ser convocada; apenas confirma que é preciso uma Constituinte escoimada desses defeitos.

Daí que a sugestão informa sobre uma Assembleia Originária e Exclusiva.

Vou desenhar.

Originária: que não deve vassalagem à “ordem” atual. Preservando o Estado Democrático de Direito, que pode ter formas diferentes, sem mexer nos pilares da soberania nacional, na dignidade da pessoa humana, nas liberdades fundamentais, na independência dos poderes. O resto, todo, é mexível.

Pode ser presidencialista ou parlamentarista, bicameral ou unicameral. Exclusiva: Aí reside o pulo do gato. Após a promulgação, a Assembleia se auto-dissolve. E seus membros não poderão disputar as próximas eleições. (quarentena).

Com candidaturas avulsas, sem prejuízo das candidaturas partidárias. Permite a politização e reduz a politicação. Não há heroísmo, pompa ou circunstância.

É uma sugestão que, no mínimo, merece discussão. Sem o pomposo ranço ideológico, que acompanha algumas pessoas por conta de rótulos que alguns têm dificuldades de arrancar.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 16/04/2017 - 16:34h

Ainda o Regimento de Obuses


Por François Silvestre

Domingo passado tratei de alguns fatos dos tempos do Serviço Militar. Tentei não servir, estava errado.

Mesmo negando o militarismo, abominando as ditaduras, rindo da ordem-unida, vejo o serviço militar como elemento agregador do civismo. Desde que voluntário e não intervencionista. O serviço militar obrigatório foi bandeira do poeta Olavo Bilac, do qual é patrono.

Eu morava na Casa do Estudante e já estava engajado no Movimento Estudantil, quando fui prestar o serviço militar. Com a prisão de Emmanuel Bezerra, Presidente da Casa, assumiu o vice-presidente. Eu era Diretor de Cultura.

Aberto o processo sucessório, fui indicado para disputar as eleições. A direita fugiu da disputa e eu fui candidato único.

Eleições no Domingo. No Sábado, eu estava de serviço, no Quartel. Pela manhã, troquei a farda de serviço pela de passeio e saí do alojamento em busca da Casa do Estudante, para votar e tornar-me Presidente daquela inesquecível instituição.

Quando ia passando pelo Corpo da Guarda, sou chamado pelo comandante do dia. Era o Tenente Pollari, da Bateria de Serviço. “Onde você estava”? Respondi que estava de serviço e de saída.

Ele disse: “Você num vai pra canto nenhum. Por ordem do QG, mandei agora mesmo uma patrulha buscá-lo na Casa do Estudante”. Argumentei: “Mas Tenente, tem eleição lá e eu sou o candidato”. Ele respondeu: “Tem eleição coisa nenhuma. O General já mandou suspender tudo e prender você”.

Pollari era um R-2, boa praça. Mandou que eu voltasse para o alojamento e de lá não saísse. Não me prenderia no Corpo da Guarda. Os outros comandantes, nos dias seguintes, fizeram o mesmo. Fiquei preso no alojamento, sem prestar serviço ou usar armas, até que houvesse nova eleição na Casa.

Fizeram nova eleição de gambiarra e foi eleito um presidente palatável ao QG, do general H. Duque Estrada. Após isso, me liberaram. De “perigoso” para presidir a Casa, voltei a ser recruta. Inclusive usando armas.

Tempo de licenciamento. Ocorre que tramitava, na Auditoria do Exército, em Recife, um processo contra vários estudantes, inclusive contra mim. Meu licenciamento foi adiado.

No Gabinete do Comandante do Regimento, Coronel T. Bertold Castelo Branco, fui ver a incineração da minha Carteira de Reservista, por conta da data nela contida. Tudo em posição de sentido.

Dezoito dias depois, fui licenciado. Ia saindo do quartel, quando vejo defronte do Cassino de Oficiais o Cap. Ibiapina. Batia com um bastão, que usava regularmente, no bico do coturno. Chamou-me. “Conselho e água só se dá a quem pede. Você não gosta do verde-oliva e ficou mais tempo do que seus companheiros. Vá cuidar da sua vida. Você não vai mudar nada, mas poderá estragá-la”.

Agradeci, cumprimentamo-nos e despedi-me.  Nunca mais o vi. Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
domingo - 09/04/2017 - 10:52h

A continência de Bolsonaro


Por François Silvestre

Prestei serviço militar no Regimento de Obuses, ali no Bairro de Santos Reis. Cinco Baterias. Três de artilharia, uma de Comando e uma de Serviços. Fiquei na de serviços. A menos importante de todas.

A hierarquia se dá também pelo número. A bateria de Serviços era a última numerada. E eu tinha o último número. Soldado 930. Portanto, eu só assumiria o comando do Quartel se todos morressem.

Na minha bateria também ficaram alguns amigos. Rilke Santos, Jaime Aquino, Isaías Almeida, Carlos Caju, Eduardo Lamartine, Noronha, Pedro Araújo, Justino. Era tempo da Ditadura, fui recruta e preso político lá mesmo. Domingo contarei isso.

Um rapaz das Rocas, Soldado Costa, que fez concurso de Cabo e continuou no exército, era fotógrafo. Tenho em Cajuais da Serra uma foto dele comigo, que ele tirou armando a máquina numa pedra.

No dia que recebemos a farda, fomos à primeira formatura. Três fileiras de soldados. O tenente Campelo ordenou “direita volver” e ficamos de frente para o Comandante da Bateria, o Capitão Ibiapina. Um bigode enorme e carranca fechada. Recebeu o comando, fez uma preleção sobre o serviço militar e perguntou: “Algum de vocês não quer servir no Exército? Se houver que dê um passo à frente”.

Eu estava na primeira fila. Tinha ouvido, no alojamento, todo mundo dizer que não queria ficar no Exército. Pensei que todo mundo iria dar esse passo. E dei. Só eu.

O capitão perguntou meu nome e número. Depois, mandou que eu saísse da formatura e fosse esperá-lo na Sala do Comando. Quando ele entrou, eu fiquei todo empertigado, posição de sentido, morrendo de medo.

Ele disse: “Descansar. Você diz que não quer ficar e agora posa de soldado”. Riu e sentou-se. O medo diminuiu. Passou bom tempo explicando as vantagens do serviço militar. Conhecimento da disciplina, armamentos, educação cívica. Não falou de política. Nem eu.

Eu disse acreditar, mas precisava estudar, vinha de família pobre, de região carente. Ele respondeu que admirava minha sinceridade, mas não haveria dispensa. Esse episódio fez com que aquele homem temido passasse a me tratar com certa cordialidade.

Permitiu minha a frequência à faculdade, pela manhã, quando eu passei no vestibular, ainda no Exército.

Esse enchimento de linguiça foi para comentar a continência que Bolsonaro prestou ao Juiz Sérgio Moro. A continência é um cumprimento entre militares. Iniciativa do subalterno, com a mesma resposta do superior. Só se bate continência estando devidamente uniformizado. Se o superior estiver em trajes civis, responde com um aceno da cabeça.

Não se bate continência sem cobertura, quepe ou gorro. É uma saudação regrada, de natureza regimental. Todo militar sabe disso. Menos Bolsonaro, que não é civil nem militar. É apenas boçal. Boçalnário.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
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