domingo - 15/01/2017 - 08:27h

Curiosidades poéticas


Por François Silvestre

Sem me atrever a discutir definições ou conceitos poéticos, debate que já produziu tratados, polêmicas, esperneios e intrigas famosas, vou ao trivial.

E como tal, longe de qualquer cientificidade literária, trato tudo no pequenino e atrevido mundo do empirismo.

Até porque de Otávio Paz a Cardoza y Aragón, de Neruda a Tolstoi, de Garcia Lorca a Machado de Assis, de Baudelaire a Fernando Pessoa, para citar poucos, todo mundo já deu seu pitaco sobre conceituação dos modos, formas e alcances da poesia.

Exemplo marcante é a formação estrutural de um idioma a partir da obra poética de um autor. Do inglês, com Chaucer e do português, com Camões.

Se a organização morfológica, no português, deve-se ao teatro de Gil Vicente; foi Camões, na poética, quem edificou a sintaxe portuguesa. Criador de um idioma; a partir de uma algaravia como a última “Flor do Lácio”, da verve de Olavo Bilac. “Ora direis ouvir estrelas”.

De lá pra cá, de tudo e sobre tudo já se escreveu quase tudo. Ainda bem que apenas quase. Pois seria uma monotonia cultural a vida com tudo já resolvido. A incompletude conceitual alimenta criações e permite, na colheita do inquieto, manter acesa a chama do refazer-se. Eternamente.

E a rima? Para o gosto popular a poesia sem rima é prosa curta. Neruda ensinou que poesia é metáfora. E a prosa poética? O Pe. Vieira foi o craque desse estilo. Ao responder o suplício do silêncio imposto, alfinetou a cúria: “Deus, na sua infinita misericórdia, fez surdos os que eram mudos e mudos os que eram surdos. Posto que até a Natureza ao ser agredida com o grito, responde com o eco”.

Há palavras de rima difícil ou até inexistente; exemplo de cinza, painço, nenem. Um violeiro aceitou o desafio e rimou: “Na Bahia de Rui Barbosa/ numa tarde muito cinza/ vi uma velha fanhosa/ que chamava camisa caminza”. Só rima; poesia nada.

“Venho para uma estação de águas nos seus olhos”. Joaquim Cardoso; só poesia, sem rima.

De Neruda, o das metáforas: “Posso escrever os versos mais tristes esta noite./ Escrever, por exemplo: a noite está estrelada e tiritam azuis os astros ao longe./… Embora seja esta a última dor que ela me cause/ e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo”.

Luiz Cardóza y Aragón, o diplomata guatemalteco que acolheu, na embaixada de Bogotá, os fugidos da revolta colombiana, na noite em que foi assassinado Jorge Gaitán, disse: “A poesia é a única prova concreta da existência do homem”.

A rima não é vilã. No bom poema ela se agasalha em lençóis de seda.

D. Pedro II rima e faz poesia no soneto/recado ao ex-amigo Deodoro. Veja a última estrofe : “…Mas a dor que crucia e que maltrata/ que fere o coração e pronto o mata,/ é ver na mão cuspir, à extrema hora,/ a mesma boca aduladora e ingrata/ que tantos beijos nela pôs outrora”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 01/01/2017 - 22:58h

Democracia de exceção


Por François Silvestre

Não se compara, nem de longe, com a exceção das ditaduras; vez que não há repressão política nem restrições à cidadania.

O tipo de violência que vivemos é de outra natureza. Insegurança na monstruosa incompetência do Estado, onipresente na desumanização e ausente no amparo. Tempo de exceção institucional.

Quando a Ditadura de 64 exauriu-se, apodrecida na lama do sangue que derramou, quis fugir do banco dos réus. E o fez negociando com ex-aliados que abandonavam o barco e com antigos inimigos que tinham pressa em abocanhar o poder.

Uma aliança dessa natureza não poderia produzir uma ordem institucional séria nem duradoura. E foi o que ocorreu. Uma constituinte, desfigurada pelo congresso constituído, para redigir a Carta Magna das Corporações. Remendada e piorada a cada remendo. Cidadania de retórica e patronato de privilégios.

Aliados antigos e beneficiários do regime decaído assumiram o comando da transição.

Para assegurar sossego ao domínio dessa desordem foi escancarada uma porteira para o estouro das corporações. Castas elevadas à condição de inalcançáveis pelos poderes tradicionais. Se há uma coisa que necessita de tradição é a prática democrática.

No Brasil, inovou-se para pior. Negou-se a tradição inaugurada em 1946 e recriou-se a cavilação. Da esperteza nobiliárquica do legalismo, do bacharelismo e do corporativismo “meritocrático”.

Sem falar na manutenção do Jaboticabal da vitaliciedade em cargos de indicação política, sem o concurso exigido na própria Carta. A vitaliciedade só se justifica na Magistratura. Só. Fora disso, é contorcionismo de malandragem.

Repito o que já disse aqui: O constituinte de 88 salvou sua biografia ao prever, no Ato das Disposições Transitórias, uma reforma geral da Carta após cinco anos da sua promulgação. Seria a forma de corrigir equívocos e chamar à ordem o feito que produziu um monstrengo ao calor do afogadilho. Essa reforma recolocaria a redemocratização nos eixos.

Os mesmos que aí estão, ou por seus descendentes, não fizeram a reforma prevista. Atores da mesma peça bufa, da burlesca encenação. Em não sendo feita a reforma, chegou-se à senilidade institucional.

Tudo desaguado nessa democracia de cangalha. Estado Democrático de Exceção.  Confissão pública dos outros Poderes da incapacidade atributiva. O País entregue ao quem sabe e ao talvez. A vida merecendo o risco do talvez e do quem sabe.  Com licença de Alencar Furtado, no discurso libertário. Tempo em que a vida também valia pouco.

Hoje, a vida vale nada! Todo o aparato repressivo volta-se para a defesa do patrimônio “público”. Sem prevenção. Só repressão, ineficiente e inútil. A corrupção faz a festa, dos corruptos e dos seus “combatentes”.

Enquanto as ruas são propriedades dos bandidos e as casas presídios desguardados.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
  • Repet
domingo - 25/12/2016 - 12:26h

O uso do tempo


Por François Silvestre

De minha parte, sobre o uso do tempo, sempre o fiz para viver. Sempre, e não me arrependo.

Leitura, escritura e trabalho são coisas para as sobras do tempo. E vez ou outra ainda dá para furtar algum tempinho dessas sobras para coisas fundamentais.

Fundamental é viver. O resto é sobremesa.

Num dos livros de Júnior de Maneco ele conta um fato que serve a esse texto. Diz ele que um amigo seu, não lembro do nome, informou que um jovem literato da terrinha, de cujo nome também não lembro, queria conhecê-lo.

E lá se foram os dois à casa do intelectual. Era hora da ceia. Foram recebidos pela empregada da casa, que os levou à sala de jantar.

O jovem intelectual estava tomando sopa e lendo um livro. Nem olhava para o prato.

Cumprimentou os visitantes e voltou à leitura.

Júnior de Maneco, vulgo Manoel Onofre, pensou: “Taí um homem que adora os livros”.

Foi a sua leitura do episódio. A leitura que fiz, ao ler o relato, foi diferente.

Pensei assim: “Taí um cabôco que detesta sopa”!

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
domingo - 18/12/2016 - 09:30h

Estopa rasgada


Por François Silvestre

Estamos irresponsavelmente adiando o inadiável. Postergando o impostergável. Acobertando o inacobertável. Camuflando o inescondível.

A ordem institucional nascida em 1988 esgotou-se. Exauriu-se. Atrofiou-se e padece de infecção generalizada, septicemia que paralisa poderes, órgãos e gestões.

Essa conversa de que as Constituições devem envelhecer para consolidar democracias não se refere à nossa cultura político-institucional. Somos, os latinos dessa América, sociedades movidas pela transitoriedade.

É da nossa tradição. Do nosso jeito de ser. Pois que sejamos o que somos e não o que são os nossos dessemelhantes.

O Brasil é um país ainda experimental. Em formação de povo e de instituições. Nossa História se faz em ciclos e não em amadurecimento continuado. Um ciclo morreu. Que nasça outro. Como a morte e coroação nas antigas dinastias.

Dizia Sartre que o Direito e a Moral não determinam as relações sociais, cujos matizes têm causas nas condições econômicas. Mas acentuou que tanto o Direito quanto a Moral exercem uma ação de retorno na infraestrutura, que muitas vezes você pode julgar uma sociedade pelos critérios morais e jurídicos que ela estabeleceu.

Há, no país, um esgarçamento político tão visível e marcante a influenciar negativamente a economia, que você fica na dúvida para localizar o que é causa ou consequência.

O esgarçamento institucional, acima referido, começa a tomar contornos fora do “controle” estabelecido. Os privilégios desqualificam o poder de controlar. E a pobreza retornando à condição de miséria.

Vimos recentemente um fato simbólico desse descontrole. Decisão monocrática do Supremo ignorada pela Mesa do Senado. “Desobediência” do não cumprimento.

Fato isolado? Nem tanto. Contornado, o episódio deixa um alerta. Foi uma desobediência localizada, no meio do atrito entre os poderes.

Pelo andar da caravana, logo teremos desobediência civil generalizada. Num quadro de economia em processo falimentar, descrédito político, bagunça institucional, e confusão de prerrogativas, quantos serão “obedientes”? E quando essa desobediência generalizar-se quem vai controlar?

A superação de um ciclo é o nascimento do ciclo novo. E isso só será possível com a feitura de nova ordem institucional. Pela força de uma Constituinte Originária.

Exclusiva. A ser dissolvida após a promulgação da carta Constitucional. Quarentena dos constituintes, proibidos de participarem, como candidatos, nas eleições seguintes e gerais que formarão o novo poder constituído.

Com candidaturas avulsas, sem prejuízo das candidaturas partidárias. Com isso, as corporações e entidades da sociedade civil, não profissionalmente politizadas, poderão ser representadas sem a hipocrisia atual.

Qualquer outra saída será remendo, no rasgão da estopa.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
  • Lion, Moda Masculina, de João Paulo Araújo - 11-08-15
domingo - 11/12/2016 - 10:12h

Cabra-cega


Por François Silvestre

Saltei do ônibus debaixo de uma neblina que imprensava os ossos. O Alecrim, que conhecia de nome e fama, era mais do que pensara.

Maior de tamanho do que imaginara. Mais gente do que jamais vira tantos juntos. Caicó, a maior vista até então, recolhia-se pequenina.

O Diocesano, que fora instrução e Casa, seria apenas retalhos brancos da despedida de inocência. Como nos versos de Navarro: “Vestes pretas cobrem meus pecados mortais./ Roupas brancas, nunca mais”.

Depois, para o Centro. E da Rio Branco para a Casa do Estudante. Uma nova morada? Muito mais do que isso. Uma nova vida pedindo arrancho ao mundo. E a novidade é a descoberta diária, a cumplicidade horária e o alumbramento que se estabelece nas relações da vida com a adolescência.

Casa do Estudante. A fisiologia, secundária. A vida cobrava sonhos. E o estômago não se presta ao sonhar. A bóia era escassa. A bandeja dividida em partes, com poucas delas ocupadas.

Feijão macaça, preto pela idade, em cujo caldo de água e óleo boiavam gorgulhos. Na pequena parte, à direita, uma batata doce. Na parte esquerda, um naco de rapadura. Na parte de cima, a “mistura”, que podia ser farofa de ovo.

Quando faltava água, descíamos até ao Paço da Pátria, onde havia um pequeno cacimbão. Com uma panela de alumínio, amarrada à tampa da cacimba, tomávamos banho.

Ao final da tarde ou início da noite, de roupa trocada, saíamos para a rua. Para o colégio, nos dias comuns; para o passeio nos fins de semana. Não permitíamos a ninguém o direito à piedade. Pobres e dignos, feito um mendigo espanhol. Éramos iguais, mesmo entre conhecidos de famílias ricas, que estudavam nos colégios particulares.

O Salão Nobre, de pobre nobreza, amparava estudos e entusiasmo.

Nossos colégios eram públicos. Tão bons quanto os outros. Atheneu, Pe. Miguelinho, Anphilóquio Câmara. Geralmente os mesmos professores. Disputávamos em pé de igualdade as aprovações nos vestibulares.

Desses colégios; Marista, CIC, CPU, eu vim a ser professor, preparando alunos para o vestibular. Alunos que hoje são muito mais importantes do que eu, e ainda me prestam a homenagem com mimos e elogios. Com amizade e generosa deferência.

Era um tempo de luta. Sem heroísmos. Apenas a oferta que a História faz, a algumas gerações, por escolha do destino, do desafio à edificação de sonhos. E não se edifica um sonho coletivo sem desprendimento e generosidade.

Mas havia uma Pátria. Mesmo dividida. Nos porões, o miasma de sangue e sêmen no útero fedido dos seus cárceres. No escondido das ruas, a penumbra da resistência. “Um estranho cheiro de súplica”.

Se não a Pátria ingênua de Olavo Bilac, do Hino à Bandeira, uma Pátria mendigando amparo. E a crença da feitura.

E hoje, cadê a Pátria? Aí está. Brincando de cabra-cega.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
domingo - 04/12/2016 - 09:47h

Tá ruço!


Por François Silvestre

Havia um tabelião cá dessas bandas, metido a culto, porque lia aquela revista americana, Seleções do Reader’s Digest, que odiava a palavra comunismo.  Benzia-se quando pronunciava a palavra maldita.

De certa feita, do bar onde bebia, ele ouviu um cigano anunciar a venda de um burrinho. “Veja e pegue, ganjão! Esse jovem e fornido burro, elegante e ruço, braiador e galopante, pela metade do que vale”.

Lá do bar, o “culto” Aluir, cujo nome  dizia significar “aquele que alevanta”, fez graça com o cigano: “Num pode prestar um animal que veio da terra do comunismo, cruz credo!”.

Zé Garcia, o chefe de grupo cigano, estava vendendo o burrinho. Ouviu a besteira do tabelião e resolveu dar o troco. Coisa que ele fazia com sutil esperteza.

“O que disse, ganjão”? Ao ouvir a pergunta, o “doutô” Aluir veio para a calçada e confirmou. “Disse que esse burro veio da terra do comunismo. Você assim falou”.

Zé Garcia não tinha instrução acadêmica, mas era bem instruído nos conhecimentos que angariara dos cordéis e dos violeiros.

E essa é uma universidade dos sertões. Sem profundidade especializada, mas bem abastecida de informações gerais. “Ganjão, eu só disse que o burrinho era ruço e braiador”. Armou a cilada. Aluir completou de peito ancho: “Isso mesmo. Você é de poucas letras, mas eu não. Intendeu”?

O cigano fulminou: “Tá certo, ganjão. Sou mesmo de poucas letras, só quatro delas no ruço do burrinho. No do senhor tem cinco”.

Provocado por Godofredo Lucas, meu colega do Diocesano de Caicó, de quem guardo lembranças e saudade, o texto vai ao Sertão de sabedorias e feiras.

Tá ruço, Godô. Sabedoria por aqui bateu retirada. A desculturação, influências alienígenas das “metrópoles”, burrada cultural, violência, negócios escusos, tudo tem enterrado a sabedoria dos grotões.

Ciganos, não mais. Feiras, extintas. Burros e jegues abandonados nas beiras das estradas. Ninguém os quer, nem de graça.

A cigana Honorina desgrudou-se do grupo e foi ficando por aqui, nunca mais partiu. Dava plantão na feira de Umarizal. Certa vez encontrou Joaquim de Alencar, escorado num balcão da loja de tecidos. Filho de Quinquim dos Cajuais e neto de Bizinha Suassuna, Joaquim era um desses dos quais você fala.

Honorina aproximou-se e propôs. “Ganjão, deixe eu fechar seu corpo; só cinco minréis”. Joaquim retrucou: “Só pago se ficar fechado mesmo”. Honorina: “Eu garanto, se num fechar num paga”.

A cigana pegou-lhe a mão e começou a leitura. Após dizer do passado e do futuro, fez a benzedura do fechamento. Pediu pra Deus o proteger de maus vizinhos.

Fechou a mão do consulente e completou: “Pronto ganjão. Tá fechado o seu corpo”.

Joaquim foi enfiando a mão no bolso “para pagar”, quando soltou um estrondoso peido. “Eita cigana véia! Ficou um buraco aberto. Num pago não”.

Té mais.

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
domingo - 27/11/2016 - 07:18h

Ode ao jumento


Por François Silvestre

Não bastasse a crise financeira, econômica, social, política, de costumes ou a maré alta de preconceitos, ainda temos de conviver diariamente com a “inteligência” furibunda dos intolerantes.

Se você disser que José Dirceu foi um ídolo seu na mocidade, mas entregou-se, por delírio do poder, à mais reles e suja das relações como o mesmo poder almejado, que é a corrupção; pode esperar porrada.

Haverá sempre um intolerante petista ou congênere armado com a mais pueril das argumentações para fulminá-lo com virulência verbal, principalmente na internet.

Se você disser que o Poder do Estado constituído, não pode exercer vingança contra quem quer que seja, ou execração pública, mesmo contra o mais nojento dos bandidos, corrupto ou pedófilo, traficante ou sequestrador; pode esperar porrada.

Haverá sempre um hipócrita de plantão arrotando santidade e cobrando sacrifício público contra os impuros. Principalmente na internet.

No meio da serenidade, onde habitam os sensatos, cientes de que ser honesto é uma obrigação de todos, não motivo de festa, e que todos nós, sem exceção, somos frágeis, passíveis de delinquir, fica difícil opinar ante a fúria do moralismo intolerante.

O moralista cristão retira da Bíblia, crônica dos hebreus, povo mercantilista e messiânico, apenas os textos que alimentam sua intolerância. E os há de sobra.

O moralista muçulmano retira do Alcorão, poema em retalhos de um belo poeta e profeta delirante, apenas as estrofes que justificam a violência.

O moralista de esquerda ainda guarda nos alfarrábios da decoreba os mesmos textos repetidos nas passeatas libertárias. Ditos por ele ou ouvido dos ancestrais. Não admite revisão, nem discute argumentos. O maniqueísmo é seu alforje.

O moralista de direita faz da “moral” sua penumbra. E no escuro da intransigência esconde sua ganância, guarda sua sujeira e delicia-se a apontar nos outros os próprios defeitos. Está na outra ponta, a trezentos e sessenta graus, bem próximo do seu inimigo da esquerda.

O que tem o jumento com isso? O jegue, hoje abandonado e esquecido, foi um edificador dos sertões. No seu dorso, em pequenos caixotes de madeira, presos às alças da cangalha, era carregado o material para a feitura dos açudes.

Há uma coisa do jumento que o matuto não venera. O som que ele produz. O relincho. Alto e feio, o sertanejo fez uma onomatopeia da parte final do som, reduzindo o nome para “rincho”.

Uma perfeição fonética. Relinchar, não. Rinchar. E o pobre jegue, que transportou a família do carpinteiro, fugida de Herodes, para que Maria desse à luz o Nazareno, sofre a discriminação de produzir o som mais feio de quantos trinados e mugidos belos produz o sertão.

O intolerante, igual ao jegue, não pensa, não argumenta, não discute. O intolerante rincha.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 20/11/2016 - 07:56h

A metáfora do escuro


Por François Silvestre

“Cessem do sábio Grego e do Troiano/ as navegações grandes que fizeram;/ Cale-se de Alexandre e de Trajano/ A fama das vitórias que tiveram;/ Que eu canto o peito ilustre Lusitano,/ A quem Netuno e Marte obedeceram:/ Cesse tudo o que a Musa antiga canta,/ Que outro valor mais alto se alevanta”.

Camões inicia duas aventuras épicas. A intencional: de responder a Homero que fincara nos versos a aventura dos gregos e a Virgílio, que cumprira papel semelhante na origem da aventura latina.

A segunda não foi intencional: estruturar o esqueleto de um idioma. A “última flor do Lácio, inculta e bela”; do dizer de Bilac. Que responderia à pergunta do tempo: “ora direis ouvir estrelas”.

Era o português uma algaravia, desde 1139, (Sec. XII) que se confundia com o galego, a linguagem da Galícia. Ganhou contorno morfológico com a obra teatral de Gil Vicente e o Cancioneiro de Garcia de Resende, (Sec. XV). Porém, foi a épica camoniana (Sec. XVI) que teve o mérito de criar o arcabouço sintático da língua que nos define.

Os Lusíadas, muito mais do que a louvação heroica das aventuras marítimas, é uma fábrica de metáforas. O forno que modelou uma forma de compor versos, na língua nascente.

A metáfora consegue remodelar o conteúdo opaco para fazê-lo brilhante, na forma recriada. Não fosse ela, a poesia seria apenas uma repetida composição de rimas. Sonoridade vocálica, pobreza poética.

A rima, nos Lusíadas, é pobre. Combinando mais das vezes desinências verbais. A metáfora, não. E é delas que ele tira a tintura dos versos para engrandecer pequenos atos. Ao dar-lhes feição maior do que o gesto.

A aventura grandiosa da circunavegação Lusitana vai se desenrolando ao apelo metonímico da mitologia. Com a cumplicidade de Vênus e Marte, sofrendo a oposição de Baco e Netuno.

A metáfora produz poesia. Ela é a rainha das figuras na composição do estilo. Dando nós onde há linha lisa e alinhando a linha onde há nós. Mesmo que seja poesia de pedra, rústica ou polida. Afagando o ouvido ou a leitura.

Dante, Shakespeare, Neruda degustaram metáforas. E deram vida à poesia nossa de cada dia. O resto não é resto, é metáfora do que resta da sobra. Onde se escondem os verbos nos porões da zeugma ou se omitem os nomes, nos escaninhos da elipse.

Aí não se pode esquecer a política nossa de cada noite. No Brasil de hoje, só a língua, mesmo maltratada, ampara a Pátria.

Só que a metáfora na política é a tentativa de esconder a verdade, muitas vezes feia, para vender a mentira falsamente bela. E o povo, metáfora da abstração, deixa-se enganar concretamente na mesma cumplicidade da metafórica democracia de faz de conta.

Na circunavegação da falsidade, institucionalmente estabelecida, senhora dos poderes e controles, o embuste ético humilha a língua de Camões.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
  • Repet
domingo - 06/11/2016 - 07:20h

A educação pela crise


Por François Silvestre

Não é fácil conviver com a crise. Nem com a seca. Nem com a escassez. E menos ainda com a “ética” dos métodos, banquete de hipocrisia. Pra cada sujeira apontada no quintal vizinho, um charco de lama na própria soleira.

Já houve quem sustentasse não ser pessimista para não parecer chato; nem otimista, para não parecer bobo. E chegou a inventar o realismo consciente. A moderação na crença e a tolerância no descrédito.

O candidato contamina-se de otimismo para convencer o eleitor a segui-lo. E ao eleitor é oferecido um pacto de entusiasmo. E a surrada promessa de mudança. E ambos fingem. Cada um no seu botão.

O eleitor se faz de besta e oferece o bolso bobo para receber a prebenda do esperto. O eleitor sabe que seu voto é uma mercadoria e o candidato intui que o comprado e pago não comporta cobrança.

Mesmo assim e talvez por isso mesmo a crise seja um rompimento de trevas. Uma lanterna a clarear no quarto escuro. Um puxão de orelhas da realidade. A crise institucional escancara-se. Mais grave do que a econômica. A economia se arruma. Instituições sem crédito não se recuperam. Só com nova ordem.

Nem a Democracia é plena nem o voto é livre. Fosse livre, o voto não seria obrigatório. Tanto a Esquerda quanto a Direita defendem o voto obrigatório. Por quê? A Direita sabe que o voto livre seria muito mais caro. E a esquerda sabe que o voto voluntário seria muito mais exigente.

A Direita precisaria de mais grana para arrancar alguém de casa e a Esquerda precisaria revisar a baboseira sofista para convencer o eleitor desobrigado de votar. O voto obrigatório é democracia de curral.

A crise rasga a mentira. O discurso, a liberdade do voto, a promessa, a propaganda, os debates ocos, a mídia venal, a fiscalização de fachada. Esse é o útero onde se fecunda o óvulo do embuste e nasce feto da crise.

Os candidatos são espermatozoides. O eleitorado é o óvulo maduro a esperá-los, no cérvix da urna. No ovário, eles se encontram. Após a caminhada difícil que veio do gozo, enfrentando cada um a hostilidade da militância inimiga.

E a conquista? O candidato excitado penetra o cio da militância. Os lados oponentes abrem as pernas do povo, no berço esplêndido. E há o coito. O resultado do coito é o coitado.

Reina o Estado Cérbero, falido, e suas castas famintas de privilégios e empanzinadas de hipocrisia.

E a seca? Apenas “uma eterna e monótona novidade”, como disse Cunha, o Euclides. Eterna porque sempre existiu. Monótona porque vem em ciclos. E novidade porque nunca nos preparamos para seu retorno inevitável.

De todo modo a crise educa, seja no aprendizado ou na reflexão. Nas trevas descobrimos o valor da luz; na retirada, recuperamos a memória do torrão. E no aperreio valorizamos a pobreza da posse escassa. A dignidade da posse que não é esmola.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 30/10/2016 - 19:40h
O menos ruim

A dolorosa escolha do eleitor diante da “Benzetacil”


Veja abaixo a intervenção interessante da webleitora Naide Rosado, que denomina esta página sabiamente de “Nosso Blog“, sobre o dilema do eleitor do Rio de Janeiro-RJ nas eleições de hoje entre Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL) à Prefeitura.

Ela dialoga com dois de nossos articulistas – Honório de Medeiros (veja AQUI) e François Silvestre (veja AQUI) – que assinaram artigos interessantes sobre política, poder, retórica, eleições e gestão pública:

- Domingo da sabedoria. Sensacional, Prof. Honório de Medeiros. Hoje, votei sem ser persuadida ou seduzida ou por escolha definida. Votei no “menos ruim”, segundo meus critérios. E, como relatei em François Silvestre, cumpriu-se o que li na Internet :

- O eleitor do Rio de Janeiro tem como escolha, em qual parte das nádegas receberá uma injeção de Benzetacil.”

* Para quem não sabe, a tal da Benzetacil é um antibiótico que deixa a ‘vítima’ dolorida por dias. Como maltrata.

Eu a conheci há muitos anos.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI.

Categoria(s): E-mail do Webleitor / Eleições 2016 / Política
  • Lion, Moda Masculina, de João Paulo Araújo - 11-08-15
domingo - 30/10/2016 - 10:22h

Realidade versus retórica


Por François Silvestre

O atual governo é continuação. Monótona repetição de uma década, sem criatividade e vazio retórico. Do segundo governo Wilma e do governo Rosalba, que Robinson jurou não continuar“.

Quando estive na Secretaria de Planejamento, recebi uma vasta explicação sobre o programa de implantação de uma prática estratégica de governabilidade. O Secretário e sua equipe inovadora fizeram uma apresentação retoricamente impecável. Tudo com vistas à colheita de reconhecimento futuro.

Na época, não contestei. Deixei que o futuro respondesse, torcendo pelo o sucesso da retórica.

Num certo momento, o Secretário sentenciou, com muita ênfase: “Foi o discurso de um governo técnico que ganhou a eleição”.

Ouvi calado para cumprir uma regra da hospitalidade sertaneja. Quando o dono da casa pede a opinião do visitante, acata a resposta mesmo que dela discorde. Porém, quando a opinião é expressa pelo dono da casa o visitante há de retribuir com a mesma gentileza.

Silenciei, cumprindo a regra não escrita da terra e da gente de onde venho. Deste sertão profundo, cujos galhos da jitirana, a se enfronharem, refazem de infância meus olhos de criança.

Incomodou-me o gentil silêncio. Por quê? Porque o interesse histórico, que é também interesse público, obrigou-me a questionar o que se revelou retórica do entusiasmo. Ainda mais a tratar-se da história política daqui. Dessa terra que carrego no matulão para qualquer lugar aonde me leve o destino de retirante.

Não, meu caro, não foi discurso técnico que elegeu Robinson. Foi um conjunto de fatores tão marcadamente convergentes, que o discurso fica na rabeira da fila. Essa promessa técnica não ganhou a eleição nem se revelou competente no governo.

A vitória de Robinson nada deve à retórica. Foi rejeição popular ao fantástico acerto de cúpula que ignorou completamente a memória coletiva. Desmentindo outra falácia técnica, de que o povo não tem memória.

Um candidato sem máculas, simples, de comunicação fácil, contra um agrupamento de “aliados” que durante três décadas trocaram acusações e insultos. O povo reprovou o ajuntamento “heterogêneo”.

Disse o Secretário que “o tempo era outro”. Retórica do vazio. Aí estão os fatos. Este texto não inova, republico as mesmas razões, pela atualidade e comprovação de que a retórica não faz a realidade. É o inverso. A realidade desmente a retórica.

Mudança é a mais prostituída palavra de cada governo.  Na hora da disputa do voto, os técnicos são dispensáveis. E a mudança decantada é a de “que tudo mude pra que fique tudo do mesmo jeito”. Da lição de Lampedusa.

O que mudou? Absolutamente nada.

O atual governo é continuação. Monótona repetição de uma década, sem criatividade e vazio retórico. Do segundo governo Wilma e do governo Rosalba, que Robinson jurou não continuar.

A beleza virtual do quadro prometido, numa tela enorme, queda-se vencida pela realidade mal enfrentada.

E todos nós pagamos por mais uma retórica abatida em pleno voo.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 23/10/2016 - 08:54h

O legalismo da patriotagem


Por François Silvestre

Dizia Samuel Johnson que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. É bem verdade que ele referia-se, inicialmente, ao partido a que se filiara, por conter a palavra “patriota” na sua denominação.

Assim como os partidos do Brasil põem nos seus nomes as palavras “democrata”, “socialdemocrata”, “trabalhadores ou trabalhista”, “humanista”, “municipalista”, “cristão”, “popular”, etc. Tudo prostituição semântica.

Pegam a semântica, abrem-lhe as pernas, na cama, e praticam a cópula, para depois gestar a cúpula. A semântica escapa pela janela e o povo cria o rebento.

Pois bem. O pensador referia-se a seu partido, mas ele próprio aceitou, sem contestação, o emprego da sua máxima para referir-se genericamente à hipocrisia do patriotismo.

No Brasil, e é dele que tenho o dever de cuidar nas minhas reflexões, só há uma categoria profissional que merece a denominação de patriotismo fora da canalhice.

São os professores primários. Das antigas escolas isoladas, dos colégios estaduais e municipais; dos grotões do Sertão aos bairros pobres das cidades. Só.

O resto é mesclado. Dos poderes às profissões diversas, em todas as áreas, das corporações às castas. Divididos em patrioteiros, patrifaceiros, patrimagogos, patrifajutos, patrilofotes, patrivangélicos, patricatólicos, patriforenses, patriparentes e até patriotas de mesmo.

Tudo posto e exposto numa vasta estante de exibição luminosa, tão clara que dá pra ver por trás da maquiagem.

E se o patriotismo é mesmo o refúgio da canalhice, o Brasil não é o país da legalidade. É o país do legalismo, que é a canalhice do sistema político da pátria viciada.

Quer ver um exemplo? Mesmo reconhecendo que a exemplificação empobrece o raciocínio abstrato, pondo a filosofia na reserva, não resisto e exemplifico.

O sistema “legal” brasileiro de licitação. Que serve aos holofotes do legalismo, às espertezas dos concorrentes e ao mecanismo de escamotear a legalidade.

Vá à Praia do Meio. No quase frontal do antigo Hotel dos Reis Magos há uma placa enorme, com a especificação dos custos da obra que tenta conter a força do mar. Veja o custo: Oito milhões, quinhentos e setenta mil, novecentos e dez reais e oitenta e cinco centavos. (R$ 8. 570. 910, 85).

Pergunto: Se você fizer uma reforma no banheiro de sua casa, que dure uma semana, terá condições de dizer com precisão quanto vai gastar? Assim: vou gastar precisamente 1.425,00 reais. Pode garantir isso? Não pode. Mesmo sem os centavos.

Imagine garantir os centavos numa obra de oito milhões. Sem previsão de tempo. E são assim todas as obras públicas licitadas. Pra satisfação do controle de faz de conta, e da cavilação legalista.

É esse o país da ordem vigente. Legalista e fora da Lei. Legalismo não é sinônimo de legalidade. É antônimo.

Té mais.

François Silvestre é escritor.

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
  • Lion, Moda Masculina, de João Paulo Araújo - 11-08-15
domingo - 16/10/2016 - 12:32h

Emergente submerso


Por François Silvestre

Não faz muito tempo corria mundo uma informação de que o Brasil estava incluído no rol dos emergentes, com amplas chances de virar potência econômica. Com a descoberta do pré-sal, substituiu-se a demagogia do biocombustível pela mentira da autossuficiência energética.

É bem verdade que não se chegou à ingenuidade de incluir o Brasil entre os países de níveis sociais aceitáveis. Seríamos uma potência econômica, com desigualdades sociais ao modelo paraguaio. O emergente, hoje, é o Paraguai.

Dentre outros emergentes, caso da Rússia, África do Sul e Índia, o quadro é semelhante. Exclui-se a China pelos motivos especialíssimos que cercam aquele mundão de riqueza e miséria habitando o mesmo espaço.

A China fica fora dessa comparação exatamente por ser incomparável. Uma ditadura de casta estatal, indevidamente chamada de comunista, praticante do capitalismo de Estado. Usando mão de obra sub-humana, de baixo custo, enquanto empanturra o mundo com produtos baratos e de qualidade duvidosa.

A Rússia, que saltou do feudalismo para o socialismo de 1917, sem esgotar as fronteiras do próprio feudalismo nem iniciar as relações capitalistas, da previsão de Marx sobre o processo revolucionário de superação dos sistemas econômicos, vive a incerteza de uma economia frágil numa democracia de faz de conta. Saltou etapas, patina nas patas. Potência militar, ainda da herança soviética.

O Brasil, semelhante na euforia emergente, difere bastante da China e da Rússia. Não tem um mercado internacional de trocas sequer próximo ao da China, nem a influência política da Rússia.

Levamos algumas vantagens internas. Somos uma democracia consolidada; ingênua e marota, esperta e bocó, mas formalmente livre. Só formalmente. Materialmente, ainda estamos longe da liberdade.

Não se pode chamar de liberdade material uma realidade onde o poder público não tem autoridade sequer para combater criminosos comuns. Um aparato caríssimo dos poderes constituídos e seus agregados, perdidos na escuridão no meio de uma briga de foice e bala.

O poder público vai de foice e a bandidagem de metralhadora. Tráfico de drogas e armas às escâncaras, sem política de prevenção ou repressão.

Pois bem. De emergente para a emergência. O Produto Interno Bruto empacou, encruado na estagnação. Inflação diária. Liberdades públicas só na Lei, sem chegarem às ruas. Ou aos lares.

Potência? Só se o resto do lado rico do mundo empobrecer, chegando a nós.

Demagogia e mentira armam a tenda e se aboletam no poder. Mentem governo e oposição.  A atividade política regrediu no caráter e prosperou no embuste.

Economia, sem rumo. Segurança pública, um terror. Saúde pública, um tumor. Educação pública, uma lástima.

Creio no futuro do Brasil, por ele mesmo, mas não confundo esperança com ingenuidade ou fanatismo.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 09/10/2016 - 07:52h

O gigante apequenado


Por François Silvestre

O Brasil é grandioso na geografia, na exuberância da natureza, na cultura popular. É grandioso na arte. No festivo e nos folguedos. Mais ou menos no esporte, menos que mais no futebol. É um dos maiores, na hipocrisia.

Porém, entretanto, mas porém, como dizia Zé Limeira, é o Brasil um país institucionalmente apequenado. Historicamente duvidoso, juridicamente inseguro, socialmente injusto, culturalmente abandonado.

Acabamos de sair de uma eleição municipal, no meio de uma crise quase sem precedentes. Falência do erário e quebradeira empresarial. Promiscuidade nas relações do poder público com a atividade empresarial.

Eleições livres? Sim e não. Livres na forma da Lei. No aparato formal, na lisura da apuração. Não se nega. Mas a liberdade é muito mais do que isso.

Eleição realmente livre não se atrela ao poder econômico. Não depende de quem detém o poder, principalmente nos municípios, onde a dependência da população é quase insuperável.

Há exceções? Sim. Porém, o raciocínio analítico sustenta-se na regra. Mesmo reconhecendo as exceções.

E é com o arrazoado do excepcional que temos visto e lido todo tipo de constatação sobre o resultado dos pleitos. Das constatações pueris aos argumentos mais fronteiriços da asneira.

Uma coisa é certa: O Brasil vive um dos seus momentos históricos de maior pobreza. Aqui a palavra pobreza sai do campo da exceção generosa para a regra generalizada.

Pobreza política, institucional, social, econômica. Saímos de uma vasta mentira de inclusão social. Esmola sob a farsa dessa “generosidade”, que era apenas um projeto de poder. No processo de esmolar, só o doador se sai bem. Pois faz a catarse de consciência e aquieta o necessitado

Quando cessa o efeito da esmola, o “status quo” anterior retorna com mais violência e mais pobreza.

Abstenção, voto branco ou nulo, conscientemente, tem a força da contestação. Infelizmente, num país nivelado pela mediocridade de cidadania, fica difícil aquilatar o nível dessa consciência.

O voto obrigatório é uma demonstração de que nem os políticos nem a Justiça Eleitoral confiam no próprio taco. Na Democracia respeitável, o voto é direito e não dever.

Mediocridade política e institucional; na vida pública e privada, onde o que é privado se locupleta na teta pública, e o que é público se completa na privada. Com todos os sentidos.

Exemplo dessa promiscuidade deu-se no quase assassinato da nossa maior empresa. Um orgulho acabrunhado. A Petrobrás foi assaltada com uma brutalidade que a corrupção superou a si mesma. Caiu o mito da eficiência privada, com a constatação da roubalheira praticada por grandes empresas, cooptadas pelo poder público larápio.

É esse o nosso tempo. Sem segurança, sem saúde, sem educação. Sobra a ideologia da estultice e da mediocridade!

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
  • Repet
domingo - 25/09/2016 - 13:12h

Quem vai investigar o esperancídio?


Por François Silvestre

Vi o nascimento do PT. Estava na praça, no primeiro comício da sigla nascente, em São Paulo Capital, depois de inúmeras declarações de Lula de que não pretendia ser político profissional ou filiar-se a partidos políticos.

Esse comício não foi o primeiro do partido recém-nascido, mas o foi o primeiro na Capital, após outras manifestações no ABC paulista. Lembro-me daquela noite, com imagens já meio embaçadas. Numa dessas lembranças, as vaias recebidas por alguns convidados que não se enquadravam na exigência purista da militância exigente e sectária.

Praça Craveiro Lopes. Cercanias da Bela Vista, vizinhança do Bexiga, caminho para chegar ao lado Oeste da Praça da Sé. Da pequenina travessa Japurá via-se a multidão em fúria. Não de raiva física, mas de furor ético.

O bar do Ramón, que tem destaque geográfico n’A Pátria Não é Ninguém, fervilhava. A Rua Abolição desaguava naquele mar.

Não posso dizer que registro a fala integral de Lula. Mas nunca esqueci sua explicação para desmentir a promessa de que “nunca serei político nem quero saber de partidos políticos”. O PTB de Vargas houvera sido, segundo ele, um clube de pelegos. Trabalhador não era sinônimo, nem representado, do “trabalhismo”.

E aí a justificativa para desdizer o que dissera. Para fazer o que prometera nunca ser feito. Naquele momento quem iria imaginar que aquela promessa quebrada seria apenas o feto de uma criança que nasceria robusta, chegaria à adolescência irrequieta, faria oposição com dignidade e envelheceria precocemente, com rugas e verrugas, no mesmo lodo do poder que tanto criticara.

Em política, nenhuma promessa carrega o cabelo do bigode. E Lula, naquela noite, pôs a barba completa na promissória. E a história demonstrou que o documento não foi resgatado.

Há uma hipoteca rondando a posse desse imóvel. Só a posse, pois a propriedade nunca foi do povo. Nunca foi e certamente nunca será.

O maior crime não foi misturar-se aos hábitos dos inimigos antigos, aliados na refeitura das conveniências. Aliados e cúmplices. Foi um grande mal. Mas não foi o mal fundamental.

Os aliados, também falsários da ética, já vinham dessa prática. Esperar o quê deles? Quantos deles, puristas de fancaria, estão enlameados no mesmo charco? Quase todos.

E quase todos viraram aliados. Essa prática desmentiu o discurso da Praça Craveiro Lopes, naquela noite que se embaça na penumbra de tantos erros e incontáveis decepções.

Mas repito que não foi o crime maior. Mesmo que seja o crime “preferido” dos templários, numa cruzada ética em busca de uma Jerusalém inexistente.

O maior delito foi matar a esperança. Ou retrancá-la na Caixa de Pandora. O sonho da inclusão social virou pesadelo da exclusão. Esperancídio é o nome desse crime.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 18/09/2016 - 10:14h

O pré-povo do Brasil


Por François Silvestre

Ao chegarem aqui, os europeus encontraram um povo formado. Esse povo, precariamente denominado indígena, pois imaginavam os “descobridores” que haviam chegado a uma parte da Índia, dividia-se em subgrupos ou tribos. Nos dois primeiros séculos dessa ocupação, os portugueses e seus desafetos só queriam explorar as riquezas.

Dos minerais à madeira. Ambas francas e de fácil expropriação. As relações do indígena com a natureza davam-se de forma tão natural que nem pareciam relações.

Era um processo sem processo. Uma espécie de respiração. Que ocorre indispensavelmente, mas não se nota. Respiração silvícola sem asma.

Gilberto Freire, numa de suas assertivas sobre a participação indígena na formação do “povo” brasileiro, cometeu um equívoco de conclusão após enunciar uma premissa verdadeira.

Darcy Ribeiro

Qual foi a premissa? Ele disse que, nessa formação, a participação da índia fêmea foi predominante e que a contribuição do índio macho foi originalmente nula.

Verdade. Houve acasalamento, desde o início, da índia com o europeu. Sem que houvesse do índio com a europeia. As europeias não vinham pra cá, nesse início de formação. A

conclusão de Freire: “O europeu vinha de um continente com mulheres pudicamente vestidas e aqui encontraram mulheres índias nuas e índios machos frios”.

Essa conclusão é um monstruoso equívoco antropológico. As roupas das mulheres europeias eram um disfarce, incitante da sensualidade, que se derramava em lascívia na alcova. Nada de pudicícia.

O índio macho não era frio. Era natural, cuja sexualidade dispensava o estímulo da erotização. Tanto é verdade que a população indígena era grandiosa e crescente, em todas as partes do Brasil. Começou a declinar após a chegada dos europeus. Freire informou o fato correto, mas concluiu deformando a causa.

Darcy Ribeiro, de escola mais progressista e menos preso a conclusões ligeiras, bebeu na fonte de Freire, mas reformou conceitos. Otimista sobre o futuro da nossa gente, via com alumbramento o povo que essa mistura viria a formar.

E dizia: A naturalidade do índio, somada à tecnologia do europeu e enriquecida com a espiritualidade do africano levará à formação da mais exuberante raça mestiça da humanidade.

Esse era o futuro da nossa formação, no olhar de um pensador orgulhoso da sua gente. Do português; vinham latinos, suevos, celtas, árabes, mouros, judeus, godos, visigodos.

Depois, os imigrantes. Alemães, italianos, japoneses e outros. Do indígena; tupis, nuaruaques, marajoaras, caetés, tupinambás, aimorés, carijós. Do africano; haussás, bantos, moçambicanos.

Fornalha de mestiçagem ímpar. Mas ainda não é um povo. Um pré-povo em processo de formação. Não se forma um povo em tempo curto, que é o nosso tempo de formação.

Aos trancos e barrancos ainda ardemos no forno dessa feitura.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal

Categoria(s): Artigo
  • Repet
domingo - 11/09/2016 - 10:40h

De Lacerda a Aécio


Por François Silvestre

A política se faz em ciclos, lições e consequências. O grave é que os ciclos não se completam coerentemente, as lições não são apreendidas e as consequências fogem do controle.

Quando o governo Jango chegou às vésperas das eleições presidenciais, marcadas para 1965, o próprio Jango pensava num saída legal para ser candidato. O PSD já lançara, em convenção, a candidatura de Juscelino Kubistchek, e a UDN fizera o mesmo lançando Carlos Lacerda.

Nas paredes dos muros do Brasil havia a chamada do marketing da época: JK-65. Lacerda flutuava favorito, nas pesquisas. E Jango incendiava o país com a proposta das reformas de base.

Jango fazia o jogo da oposição. Oposição quer instabilidade. O comício da Central do Brasil, no início de Março de 64, foi o pretexto que a Direita precisava para estimular o apoio material, e militar se necessário, dos Estados Unidos, ao golpe de Estado que vinha sendo costurado desde a eleição de JK, em 1955.

A disputa entre americanos e soviéticos, pelo domínio e controle do planeta, punha o Brasil na condição estratégica do interesse do Tio San. Não suportariam uma “grande Cuba”. E era essa a impressão que a Direita demonstrava aos EEUU com as fotos e filmes daquele comício.

Nos quartéis, havia um partido político sem filiação eleitoral. Aqueles generais nunca foram militares, no sentido castrense do termo. Políticos desde que tenentes, nos Anos Vinte; coronéis, nos Anos Quarenta; e generais, nos Anos Sessenta. Políticos e politiqueiros. Só o PSD e a UDN não percebiam isso.

O golpe fascista retirou Jango da disputa e da vida pública. Lacerda participara do núcleo da conspiração. Queria caminho livre. Juscelino apoiou o golpe, depois de consumado, e votou em Castelo Branco, que lhe prometera manter a calendário eleitoral.

Se Castelo fosse militar teria cumprido a promessa. Mas era político, e mentiu. Cassou Juscelino. Lacerda, dessa forma, pensava livrar-se dos únicos candidatos capazes de vencê-lo.

Só que os políticos da caserna tinham outros planos. No segundo governo da Ditadura, Lacerda foi preso e cassado. Para tirar Jango do jogo, Lacerda e Juscelino caíram do cavalo e foram pastar no ostracismo. Sem o apoio deles, a milicada não teria chegado ao poder.

Sem fazer comparação de mérito com o quadro atual, por serem absolutamente distintos, numa coisa há semelhança: A sucessão.

Aécio Neves quase derrota Dilma. Tinha tudo para chegar ao pleito de 2018 na condição de líder inconteste da oposição. Tinha. Passado imperfeito.

A queda de Dilma retira a hegemonia de Aécio. Se Temer der errado, Aécio pagará pelo desgaste. Se der certo, o PMDB vai cobrar a fatura. Num caso ou noutro, Aécio sai perdendo.

“Quem se apressa come cru”. E em política, o apressado pode ser o comido.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 04/09/2016 - 19:54h

A palavra de cada tempo


Por François Silvestre

Cinza. É a cor da pintura nova do presente velho tempo. Nada de saudosismo. Nem da surrada fala dos avós, “no meu tempo num era assim”!

Tempo nenhum é igual ao tempo outro. Nem o espaço é o mesmo no tempo diferente, mesmo que seja o mesmo campo não será mais o mesmo lugar.

Mas uma coisa é absolutamente inquestionável: vivemos o tempo sublime da mediocridade. Nível medianamente posto abaixo da linha d’água.

Mediocridade política, intelectual, cultural. Até a honestidade adjetivou-se como “um prêmio” e não uma obrigação natural. E por ela, em seu nome, castas se empanzinam do marajanato mais cínico ante a miserável remuneração do rebanho.

Republicano era o adjetivo de partidos políticos, da semântica latina da coisa pública. Virou prostituição da semântica moderna, onde trampolineiros habituais usam-no para fazer faxina na sujeira dos seus discursos.

Legitimidade era o alicerce da Lei, que precisava legitimar-se para ingressar no estuário da legalidade. Legalidade era consequência, na forma da lei, legitimamente constituída com vistas ao bem público.

Diferentemente do agora, onde o embalo de cada onda ou o interesse de cada segmento produz as leis que lhes interessam. Ou lhes acobertam. Ou atropelam os mesmos interesses dos oponentes.

E o pior: o fascismo vestiu-se de roupagem suave, puritana, inofensiva. Só faz cara feia para “defender a ética”. Os fascistas modernos não fazem anauê nem desfilam fardados. De jeito e maneira, como diria Ti’Orácio. São macios, democratas e republicanos. O seu discurso é irrespondível, pois se agasalha no estuário da hipocrisia do senso comum.

Negociação política virou escracho sem qualquer pudor. Popular virou sinônimo de imbecil. O fórum é a casamata das vaidades ou das vinganças. Onde o processo é mais importante do que a vida ou a liberdade. Superior à Lei.

Pensão era nome de hotel do interior. Igreja era lugar de orações. Norma era sinônimo de lei. Estado era sociedade organizada. Segurança era direito natural. Escola transmitia Educação. Cultura era alimento do espírito. Mentira era exceção.

Ásperos tempos. Talvez não tanto quanto os tempos de Brecht. “Vivi num tempo de guerra, sem sol. Comi minha comida no meio da batalha; vocês não esqueçam esse tempo”.

Num tempo desses dá pra renegar Satanás? No leito de morte, Voltaire recebeu a visita do pároco da sua freguesia. Perguntou o velho padre: “Voltaire, você renega Satanás”? O filósofo respondeu baixinho: “O senhor não acha que essa é uma hora muito inconveniente para fazer inimigos novos”?

Pois bem. Esse é o tempo da “nova” semântica. De conceitos velhos repintados com demão de farsa. Do cinismo engalanado para o festim de Belsazar.

Se abrirmos a Caixa de Pandora nem a esperança ficará presa e salva. Voará nas asas escuras de um morcego cego.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 28/08/2016 - 21:27h

A concretude do abstrato


Por François Silvestre

“A poesia é a única prova concreta da existência do homem”. Coloquei, na placa da Praça da Poesia, esta citação e o nome do seu autor: Luis Cardoza y Aragón.

Minha surpresa foi o quase completo desconhecimento da existência de Aragón, no universo intelectual da província. Um poeta famoso da terrinha olhou a placa, fez uma careta, e perguntou: “Quem é”?

A Praça da Poesia é um pequeno espaço, na área do Palácio Potengi, onde se aboleta a Pinacoteca do Estado. O prédio estava em estado de risco. Além de maltratado nas estruturas, havia uma linha na armação principal que ameaçava desabar sobre o sistema geral de climatização.

Era o risco iminente de desastre elétrico. Imagine um acidente na eletricidade de um prédio recheado de madeira, tecidos e tintas. Telas, molduras e materiais de exposição. Era como acender um fósforo num recipiente de gasolina. Decidi restaurar e recuperar o imóvel histórico. E o fiz.

Volto à pracinha da poesia. Atendi a um apelo de Alexandre Dunga Garcia, líder da bela e nobre pobreza do Beco da Lama. Nem sei se a Praça ainda existe. O que não foi abandonado foi destruído, sob o olhar complacente e omisso dos ditos órgãos de controle.

E pus na placa da Praça a citação corajosa de Aragón, de que o homem só se prova existente pela invenção da poesia. E não pela pompa das edificações monumentais.

Um intelectual renomado, numa praça de shopping, perguntou se a citação não era de Octávio Paz. Ele não conhecia, mas achava pouco provável ser de um desconhecido seu. Essa coisa que só a vaidade explica. Respondi marotamente que o grande pensado Mexicano jamais furtaria o crédito.

Luis Cardoza y Aragón foi poeta, diplomata e resistente democrata na Guatemala dos meados do Século Vinte. Viveu mais tempo no exílio do que em casa.

Num dos intervalos da exceção, ele foi designado embaixador na Colômbia. E estava lá, numa noite de terror do mês de Abril de 1948. O líder populista Jorge Eliécer Gaitán foi assassinado, o que provocou uma onda de terror pelas ruas de Bogotá.

Muitos dos perseguidos, naquela noite, buscaram refúgio na embaixada da Guatemala. Gabriel Garcia Marques, no seu livro de memórias, quase depoimento, conta o episódio e diz que a Colômbia entrou no Século Vinte naquele dia.

E foi o autor dos “Cem Anos de Solidão” quem fez um retrato falado do caráter de Luis Cardoza y Aragón. O caráter político e o talento poético.

Ele repetiu a frase que, surpreendentemente, eu descobri ser desconhecida de alguns dos nossos intelectuais cadastrados. É isso mesmo. Nós temos um cadastro de intelectuais. Jenicleide já pediu o cadastramento de Florentino Vereda. Vai ter licor de mangaba e conhaque de araticum-cagão.

No meio da concretude estúpida dos novos tempos, a suave abstração da poesia.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

 

Categoria(s): Artigo
domingo - 21/08/2016 - 10:22h

O pior inimigo


Por François Silvestre

Numa cidade alemã, desenvolvida e de médio porte, havia dois colégios renomados. Um deles, laico. O outro, presbiteriano, cujo Reitor tinha a fama de intransigente em matéria de fé.

Esse Reitor vivia às turras com o melhor alfaiate da Cidade. O costureiro, culto e ateu, zombava das opiniões do Reitor. No único jornal do lugar, os dois trocavam farpas e ironias.

Pessoalmente, tratavam-se com sociabilidade. Havia entre eles um respeito reverencial. Mesmo que nenhum poupasse do outro uma irreverência teórica. Um gostinho áspero de provocação.

O presbítero possuía uma razoável cultura humanística, com forte alicerce calvinista. O alfaiate era leitor dos clássicos, cujo ateísmo tinha suporte no anarquismo empírico. Não militava politicamente, mas não se negava a expor abertamente sua franca oposição à burguesia alemã e a todas as denominações religiosas.

E assim eles viviam e conviviam numa comunidade sossegada, de uma cidade média da Alemanha do Século Dezenove.

Início de ano letivo, o presbítero Reitor vai conferindo a lista dos candidatos à matrícula no colégio que dirigia. Um nome lhe chama à curiosidade. Ou melhor, um sobrenome.

Ele percebeu que um dos candidatos carregava o nome de família do alfaiate ateu. Não quis acreditar. Até porque o colégio laico da Cidade era reconhecidamente de excelente qualidade. Reconhecido até pelo colégio concorrente. E por todos daquela comunidade.

O que fez? Determinou à secretaria da escola que encaminhasse o aluno pretendente à sua sala. E assim foi feito. Ao conversar com o jovem descobriu que ele era mesmo filho do seu oponente ateu.

Não teve dúvida. Resolveu procurar o alfaiate para esclarecer aquela decisão.

O desafeto estava na alfaiataria, costurando uma peça, quando chega o Reitor do colégio presbiteriano. Cumprimentou-o e ofereceu-lhe uma cadeira.

“Seu filho foi matriculado no “meu” colégio. A quem se deve essa decisão; porque não deve ter sido sua, foi dele”? O alfaiate, deliciando-se com aquela pergunta, respondeu: “Foi decisão minha. Ele queria ir para o outro colégio”.

O reitor questionou: “Pois fique sabendo que faremos tudo para que ele conheça Deus e O conheça bem”.

O alfaiate respondeu, rindo: “É isso mesmo que eu quero e espero que você seja competente nisso; pois o homem precisa conhecer, em profundidade, aquilo que vai combater”.

Esse relato consta da obra de Eugen Rosenstock-Huessy, sobre a origem da linguagem. O pensador alemão, de origem judaica, aderiu ao cristianismo ainda jovem. Dedicou-se ao estudo profundo, sistemático, da linguagem.

A demonstrar que o conhecimento dela é passo necessário para desvendar os mistérios da evolução humana. “A palavra Deus não significa aquele que cria, mas aquele que fala”.

O único invencível é o desconhecido.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
domingo - 14/08/2016 - 03:30h

Vindo da ida


Por François Silvestre

Quem chega em casa aos setenta/

Vindo do ermo da ida,

Arrastando as armas que pendem da cintura,/

Na ferrugem de todas as perdas,/

Apenas vê as ruínas das paredes/ da velha casa

Que ainda lhe oferece abrigo./

Feita de tristeza? Não. De solidão? Menos ainda./

Há todo um encanto de chegada/ que faz dos setenta/

Uma triste alegria de quem nunca saiu dali/.

Esteve sempre preso nas cinzas amareladas da

Espera. /

E se não esperou chegar/ também não partiu./

Imita o rei dos celtas ante o conquistador romano:/

Joga as armas no chão/ procurando um vencedor inexistente!

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Poesia
domingo - 07/08/2016 - 10:26h

O oco do vazio


Por François Silvestre

Dizia-se, no sertão de falas vastas, que alguém de fora chegado, de onde não se sabia, vinha do oco do mundo.

O sertão é um feitor de falas. Desde a fala restrita, seca, pouco sonora de Graciliano Ramos até o som construtor de frases que espantam, na linguagem enviesadamente bela de Guimarães Rosa.

Mas nem o sertão consegue disputar com o poder público o enviesado da linguagem. A diferença é que nos grotões do povo entorta-se a linguagem para alcançar novas formas de comunicação. E há uma refeitura semântica.

Na comunicação do poder a linguagem sofre duas agressões brutais. A primeira é de ignorância mesmo. Analfabetismo oficial. A outra é de malandragem. Uso da linguagem para mentir, distorcer e vender otimismo.

A mentira na literatura não é mentira, é ficção. A ficção na política não é ficção, é mentira. E o poder público mente com tal suavidade que parece um batedor da verdade. Essas verdades “absolutas” que abastecem as crenças religiosas.

Cada um com sua mentira pronta para levar a verdade ao forno. Tostá-la e vendê-la, crua como se cozida fosse. E o povo, apressado, come cru.

O Brasil tem jeito? Sim. O principal jeito do Brasil é reinventar o jeito. Foi sempre assim. No momento atual a saída é um freio de arrumação. A coragem de refazer o que está desfeito.

Uma Constituinte Originária para a refeitura de uma nova ordem institucional. Com candidaturas avulsas e limitações à picaretagem partidária.

Com a proibição da candidatura dos constituintes nas eleições seguintes. Só aí já se retira da Assembleia Constituinte uma soma considerável de picaretas. Picaretagem partidária, evangélica ou coorporativa.

A ordem institucional decorrente de 1988 exauriu-se. Só não vê isso quem é cego político. Ou beneficiário de castas privilegiadas.

O país mergulha cada vez mais profundamente no vazio institucional. A casca se desmonta, por ausência de miolo que justifique a própria casca.

A “federação” nunca foi tão desfederada quanto agora. Vejam as realidades de dois entes federados vizinhos. Paraíba e Rio Grande do Norte. A comparação deixa o papa jerimum papando casca de estaca, feito bode faminto.

Quando o governador eleito Robinson Faria me convocou para uma reunião, conversamos sobre muita coisa. A motivação era o discurso de posse.

Ao ouvir o relato das suas intenções, comentei: “Olha, Robinson, se você fizer dez por cento do que está anunciando, será um grande governo”. Um seu auxiliar, que foi para a direção do DETRAN, repreendeu-me: “Esse é o mal. As pessoas se satisfazem com dez por cento. Vamos fazer tudo”.

Cadê os dez por cento daquele discurso? O auxiliar “Beleza” durou pouco no cargo. O prometido respeito ao servidor virou pó. Sem garantia de salário em dia, não há serviço digno.

E na indignidade qualquer discurso será o oco do vazio.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
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