domingo - 19/02/2017 - 08:54h

Necessidade da origem


Por François Silvestre

Deslocar um objeto para trás, no passado, equivale a reduzi-lo aos seus elementos mais simples. E seguidas tão longe quanto possível, na busca das suas origens, veremos que as últimas fibras do composto humano confundem-se com o próprio estofo do Universo.

A assertiva de Teilhard de Chardin vai muito além das fronteiras da biologia ou da antropologia. Há uma necessidade de procurar, perquirir e saber quem somos. E nessa busca, se possível, atingir o “de onde viemos”.

Deixando de lado a questão maior, da evolução ou criação, quero tratar do mais simples. Da origem que cada pessoa na busca de si mesma, da sua genealogia. Como se fosse a procura de uma casa ou abrigo no ontem de cada um.

Daí que há sempre, felizmente, quem busca informações sobre a própria genealogia. Isso não é pedantismo ou orgulho étnico. Muito pelo contrário, é uma necessidade pessoal. Uma vaidade sadia.

E quanto mais longe, no passado, viaja essa busca maior a chance de aproximar-se dos seus elementos mais simples. Do seu estofo pessoal. Dos laços mais longínquos que sustentam as primeiras e últimas fibras do seu umbigo.

Esteja esse cordão umbilical perdido num monturo de maternidade, na cidade grande, ou ao pé de um morão de um antigo e abandonado curral. Numa fazenda que só pastora lembranças.

Necessário pra quê? A resposta é que deu Ernst Fischer sobre a necessidade da arte. É necessária; não sei pra que, mas é.

Ele conta sobre um costume dos índios do Xingu. O indígena pinta a panela de barro, com belos desenhos. Ao levá-la à primeira fervura, o fogo desmancha a pintura. E fica só a mancha preta no barro. Ele sabe disso, mas não põe a panela na trempe sem pintá-la.

Não há explicação pra essa necessidade. É necessário e só. Como a necessidade da navegação dos aventureiros fenícios, que pela escassez de tempo à reflexão e pressa na comunicação inventaram as consoantes. Mesmo com o genial invento, navegar para eles era mais necessário do que juntar símbolos gráficos na evolução da linguagem.

Viveram do necessário, sem o saber, e inventaram o fundamental, sabendo muito bem. A linguagem nunca mais foi a mesma, no mundo ocidental. De sua sabedoria os poetas repetiram os versos que navegam a poesia. “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Porém, não se confunda necessidade da origem com a origem da necessidade. Dessa hereditariedade consagrada na nossa capitania.

Para saber a origem de alguns encargos, nos cargos dos diversos escalões, basta ver o sobrenome. Entre eleitos ou nomeados. Nós que elegemos sabemos da nossa origem deserdada.

Os eleitos, de origem nobiliárquica, repetem Giovanni Lorenzo di Médici, o Papa Leão X: “Deus nos deu o papado, vamos aproveitar”. Convocou os nepotes.

Aqui, de Santa Luzia ao Sal, o Papa Leão é o Diário Oficial.

Té mais.

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal hoje.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
terça-feira - 14/02/2017 - 12:25h
Chuvas e assoreamento

Boa notícia? Nem tanto


Por François Silvestre

Chove e muito por aqui. De forma irregular, pois não se tem confiança na continuação com regularidade. Mas choveu bem, nos dois últimos dias.

Vários açudes sangraram. É boa notícia? Nem tanto.

Muitos sangraram rapidamente porque estão assoreados. Aterrados. Com o porão rente à base da parede. Cinco anos de seca nas nuvens e nas ações do poder público. E no descaso de fazendeiros, se é que ainda exita esse bicho.

Ninguém teve a preocupação de refazer os porões dos açudes, apesar da cobrança. Cavação com trator, jogando o material retirado para o lado a jusante da parede.

Refazia a capacidade de armazenamento e reforçaria a parede. Simples assim.

Isso foi cobrado insistentemente, mas em vão. Estão enchendo e secarão logo.

Fazer o quê? A deseducação é a mãe da burrice.

Nota do Blog Carlos Santos – Conversava hoje pela manhã com amigos, justamente sobre isso. Atentávamos para o detalhe de que muitos reservatórios logo tinham sangrado, justamente pelo assoreamento e não porque as chuvas tenham sido desmedidas.

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Categoria(s): Gerais
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domingo - 12/02/2017 - 08:22h

Queto do Anacleto


Por François Silvestre

Passado nos anos, está quase cego. Mas vê distante. Principalmente com os olhos da memória, que não se embaçam nem se perdem nas águas inexistentes da catarata.

Seu nome repete o nome do pai. O que se fez resumir pelo som mais próximo. Anacleto virou Queto, pela dificuldade que tinha sua avó na pronúncia do “éle” depois da consoante. O que seria Cleto é Queto.

E assim ficou: Queto de Anacleto de Silecina. Carregava, portando, no próprio nome, os nomes agregados do pai e da avó.

Mora numa casa quase perdida entre o riacho dos Dormentes e a serra do Bonsucesso. De alvenaria, apenas o quarto de dormir e a cozinha. Corredor e sala, de taipa; latada coberta com palmas de carnaúba.

Fui visitá-lo num Domingo de tarde modorrenta, a esperar as chuvas prometidas pelos meteorologistas. O caminho quase desapareceu. O carro foi deixado na subida da ladeira de Portalegre, no antigo sítio de Rodolfo Mafaldo.

Queto estava quieto, sentado num tôco de quixabeira sob a sombra de sua latada. Usa óculos borrados, mais por hábito do que por serventia.

“Chegue-se mais perto, de longe só vejo pelos ouvidos”. Ao me apresentar, ele levantou-se. “Ora, ora. És vosmicê mermo”? Queto só fala “errado” quando quer. Teve instrução média e leitura boa, por conta de sua convivência com Padre Mário, velho pároco de Portalegre. Anos Cinquenta e Sessenta.

Naquela Matriz Queto era um faz tudo. De manutenção a ajudante de missas. Que ele ainda recita em latim.

Passou a mão no meu rosto e explicou: “Quero ver se ainda usa barba”. Depois, sentou e mandou que eu fizesse o mesmo.

Apoiava-se na bengala alisada pelo tempo, uma vergôntea de mofumbo. Conversamos sobre as “novidades”, que ele ignora. “Nem sei quem é o prefeito, Vosmicê sabe”?

Perguntei sobre a saúde. Ele riu: “A minha ou a do povo”? Quis saber dele. A do povo, ora, que saúde? Ele começou pela idade. “Preste tento. Véi num tem saúde, tem mantença. Ajeita daqui, remenda dali, pra continuar a ilusão da vida”.

Descobri que ele não vai à farmácia. Mantém o mesmo hábito do seu avô materno, que foi “médico” popular. Para problemas de respiração, chá de raiz da ipepaconha. Fortalece os ossos com mastruz no leite. Leite da cria de suas cabras. Quando a urina escasseia, toma infusão de velame com raiz de quebra-pedra.

Na agitação, chá de capim-santo; calmante, que ajuda a dormir. Afina o sangue com a batata de purgar. E chá de canela para controle da pressão. Quando o esôfago se irrita, ao tomar umas biritas, tira a ressaca com chá de fedegoso. Escova os dentes com raspa de juá. Na febre, infusão de eucalipto. Ao ferir-se, tintura de jucá.

Pergunto sobre o tempo. Ele tira os óculos, como se servissem para alguma coisa, e responde: “Meu filho, parece que até as plantas e os bichos se esqueceram do que sabiam”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Crônica
quarta-feira - 08/02/2017 - 14:18h
Inflação

Foguetões para a mentira


Por François Silvestre

O governo federal comemora com foguetões e fanfarra a “inflação” baixa de janeiro.

Patifes.

Como haver inflação na recessão? Desemprego crescente, consumo declinante, inflação de quê?

Custo de vida Altíssimo. Tudo caro, mas a “inflação” é medida com artimanhas e números mentirosos.

Terminou o “progresso” da esmola, com o PT  e os aliados de ontem que tomaram o poder, e começou o “desenvolvimento” da mentira.

No meio dessa merda, a população, que não é petista nem tucana/peemedebista, é apenas sofrida e roubada por esses cretinos e pelas castas que fiscalizam também de mentira.

Tudo rico, no assalto aos cofres públicos, seja pela corrupção ou pelos contracheques desavergonhadamente inchados de mumunhas e privilégios.

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Categoria(s): Artigo
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terça-feira - 07/02/2017 - 22:21h
Articulista

Paulo Linhares no Blog Carlos Santos


Paulo: no time

O advogado Paulo Linhares vai passar a compor nosso timaço de articulistas dominicais.

Escreverá sobre que assunto?

Qualquer coisa que for pertinente à sua massa cinzenta privilegiada.

Outros reforços virão ainda se juntar a Honório de Medeiros, Carlos Duarte, Marcos Pinto, Francisco Edilson Leite Pinto Júnior (que está em falta e será chamado aos ‘carreteis’), Gutemberg Dias, François Silvestre, David Leite etc.

Aguarde.

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Categoria(s): Artigo / Comunicado do Blog
domingo - 05/02/2017 - 08:00h

Para Florentino Vereda


Por François Silvestre

A poesia é a única prova concreta da existência do homem”. Coloquei, na placa da Praça da Poesia, esta citação e o nome do seu autor. Luis Cardoza y Aragón.

Minha surpresa foi o quase completo desconhecimento da existência de Aragón, no universo intelectual da província. Um poeta famoso da terrinha olhou a placa, fez uma careta, e perguntou: “Quem é”?

A Praça da Poesia é um pequeno espaço, na área do Palácio Potengi, onde se aboleta a Pinacoteca do Estado. O prédio estava em estado de risco. Além de maltratado nas estruturas, havia uma linha na armação principal que ameaçava desabar sobre o sistema geral de climatização.

Era o risco iminente de desastre elétrico. Imagine um acidente na eletricidade de um prédio recheado de madeira, tecidos e tintas. Telas, molduras e materiais de exposição. Era como acender um fósforo num recipiente de gasolina. Decidi restaurar e recuperar o imóvel histórico. E o fiz.

Volto à pracinha da poesia. Atendi a um apelo de Alexandre Dunga Garcia, líder da bela e nobre pobreza do Beco da Lama. Nem sei se a Praça ainda existe. O que não foi destruído foi abandonado, sob o olhar complacente dos ditos órgãos de controle. Abandonar ou destruir não gera cobrança.

Pus na placa da Praça a citação de Aragón, de que o homem se prova existente pela invenção da poesia. E não pela pompa das edificações monumentais.

Um intelectual renomado, numa praça de shopping, perguntou se a citação não era de Octávio Paz. Ele não conhecia e achava pouco provável ser de um desconhecido seu. Essa coisa que só a vaidade explica. Respondi que o grande pensador Mexicano jamais furtaria o crédito.

Luis Cardoza y Aragón foi poeta, diplomata e resistente democrata na Guatemala. Viveu mais tempo no exílio do que em casa.

Num dos intervalos da exceção, ele foi designado embaixador na Colômbia. E estava lá, numa noite de terror do mês de Abril de 1948. O líder populista Jorge Eliécer Gaitán foi assassinado, o que provocou uma onda de terror pelas ruas de Bogotá.

Muitos dos perseguidos, naquela noite, buscaram refúgio na embaixada da Guatemala. Gabriel Garcia Marques, no seu livro memórias, quase depoimento, conta o episódio e diz que a Colômbia entrou no Século Vinte naquele dia.

E foi o autor dos “Cem Anos de Solidão” quem fez um retrato falado do caráter de Luis Cardoza y Aragón. O caráter político e o talento poético. E repetiu a máxima desconhecida de alguns dos nossos intelectuais cadastrados.

Quando Florentino Vereda chegou do Jalapão, ficou abismado com a ignorância e comentou: “Isso é coisa de vocês intelectuais”. Mal sabia ele que Jenicleide, à sua revelia, já requerera sua inscrição nesse cadastramento.

E o coquetel do evento será regado a licor de mangaba e batida de araticum-cagão.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Crônica
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domingo - 29/01/2017 - 07:44h

Demoquera


Por François Silvestre

A terminação “quera”, “uera”, “puera” ou simplesmente “era”, dependendo da letra de junção, do tupi guarani, que formou inúmeras palavras no português falado do Brasil, tem um sentido especialíssimo.

A ligeireza, como diria Kerubino Procópio, de alguns historiadores definiram essas palavras como sinônimos de associação. Exemplo: Anhanguera. Aprendemos nos livros de história que significava “diabo velho”. Apelido que os índios puseram em Bartolomeu Bueno, bandeirante que ateou fogo ao álcool, ameaçando queimar os rios, para assustar e conseguir informações sobre minas de ouro.

Essa definição peca pela pressa. Anhanguera quer dizer aquele que não é o diabo, mas possui características dele. Assim como “tapera”. Que não é mais uma casa, mas guarda resquícios dela.

Itaquera. Não é mais uma pedreira, mas ainda se parece com ela. Ibirapuera, arbusto ou mata, guarda jeito da floresta que foi.

E assim saímos do campo da sinonímia para a metáfora silvícola. No português a metáfora envolve um enunciado que supera a comparação e produz uma imagem poética.

Na linguagem dos índios a metáfora se dava no corpo da própria palavra. Na oralidade que jorrava da interação com a natureza e suas crenças.

Posto o nariz de cera, vamos ao palhaço. Não há Democracia no Brasil. Pela razão simples de que os governos exercidos no país têm vários proprietários, excluído o povo.

Se Democracia é governo do povo, e se o povo não é dono do governo, não há Democracia.

Porém, entretanto, mas porém, como diria Zé Limeira, a Democracia possui algumas características que o Brasil preenche.

Temos liberdade formal, prevista em lei. Temos eleições, com Justiça Eleitoral funcionando. Somos livres para locomoção, quando os bandidos permitem.

A ordem administrativa divide-se em instituições. Cuja bagunça constitucional transformou numa valsa da marquesa doida. Ninguém sabe onde começa ou termina a prerrogativa de cada poder ou de cada órgão. Ou se o órgão é um poder ou um quase poder, ou ainda semi-poder. Isto é, ordem institucional do semi-quase.

Donde se conclui que se não é Democracia, mas guarda características dela, vamos nos valer da metafórica linguística dos índios. Somos uma Demoquera. Aquilo que não é Democracia, mas possui trejeitos dela.  Assim como tapera, cujos escombros informam que ali houve uma casa.

Tivemos uma experiência democrática, com as virtudes e defeitos da nossa compleição, no período seguinte da ordem constitucional da Carta de 1946.

O golpe civil-militar, de 1964, militarizado após o escanteio dos civis, interrompeu o ciclo. E mergulhou o país nas trevas que ainda hoje afugenta sinais de luz. Tudo que aí está é resultado da quebra do ciclo histórico.

Só uma Constituinte Originária terá legitimidade para restaurar a Demoquera e refazer a Democracia.

Té Mais.

François Silvestre é escritor

* Publicado originalmente  no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 15/01/2017 - 08:27h

Curiosidades poéticas


Por François Silvestre

Sem me atrever a discutir definições ou conceitos poéticos, debate que já produziu tratados, polêmicas, esperneios e intrigas famosas, vou ao trivial.

E como tal, longe de qualquer cientificidade literária, trato tudo no pequenino e atrevido mundo do empirismo.

Até porque de Otávio Paz a Cardoza y Aragón, de Neruda a Tolstoi, de Garcia Lorca a Machado de Assis, de Baudelaire a Fernando Pessoa, para citar poucos, todo mundo já deu seu pitaco sobre conceituação dos modos, formas e alcances da poesia.

Exemplo marcante é a formação estrutural de um idioma a partir da obra poética de um autor. Do inglês, com Chaucer e do português, com Camões.

Se a organização morfológica, no português, deve-se ao teatro de Gil Vicente; foi Camões, na poética, quem edificou a sintaxe portuguesa. Criador de um idioma; a partir de uma algaravia como a última “Flor do Lácio”, da verve de Olavo Bilac. “Ora direis ouvir estrelas”.

De lá pra cá, de tudo e sobre tudo já se escreveu quase tudo. Ainda bem que apenas quase. Pois seria uma monotonia cultural a vida com tudo já resolvido. A incompletude conceitual alimenta criações e permite, na colheita do inquieto, manter acesa a chama do refazer-se. Eternamente.

E a rima? Para o gosto popular a poesia sem rima é prosa curta. Neruda ensinou que poesia é metáfora. E a prosa poética? O Pe. Vieira foi o craque desse estilo. Ao responder o suplício do silêncio imposto, alfinetou a cúria: “Deus, na sua infinita misericórdia, fez surdos os que eram mudos e mudos os que eram surdos. Posto que até a Natureza ao ser agredida com o grito, responde com o eco”.

Há palavras de rima difícil ou até inexistente; exemplo de cinza, painço, nenem. Um violeiro aceitou o desafio e rimou: “Na Bahia de Rui Barbosa/ numa tarde muito cinza/ vi uma velha fanhosa/ que chamava camisa caminza”. Só rima; poesia nada.

“Venho para uma estação de águas nos seus olhos”. Joaquim Cardoso; só poesia, sem rima.

De Neruda, o das metáforas: “Posso escrever os versos mais tristes esta noite./ Escrever, por exemplo: a noite está estrelada e tiritam azuis os astros ao longe./… Embora seja esta a última dor que ela me cause/ e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo”.

Luiz Cardóza y Aragón, o diplomata guatemalteco que acolheu, na embaixada de Bogotá, os fugidos da revolta colombiana, na noite em que foi assassinado Jorge Gaitán, disse: “A poesia é a única prova concreta da existência do homem”.

A rima não é vilã. No bom poema ela se agasalha em lençóis de seda.

D. Pedro II rima e faz poesia no soneto/recado ao ex-amigo Deodoro. Veja a última estrofe : “…Mas a dor que crucia e que maltrata/ que fere o coração e pronto o mata,/ é ver na mão cuspir, à extrema hora,/ a mesma boca aduladora e ingrata/ que tantos beijos nela pôs outrora”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 01/01/2017 - 22:58h

Democracia de exceção


Por François Silvestre

Não se compara, nem de longe, com a exceção das ditaduras; vez que não há repressão política nem restrições à cidadania.

O tipo de violência que vivemos é de outra natureza. Insegurança na monstruosa incompetência do Estado, onipresente na desumanização e ausente no amparo. Tempo de exceção institucional.

Quando a Ditadura de 64 exauriu-se, apodrecida na lama do sangue que derramou, quis fugir do banco dos réus. E o fez negociando com ex-aliados que abandonavam o barco e com antigos inimigos que tinham pressa em abocanhar o poder.

Uma aliança dessa natureza não poderia produzir uma ordem institucional séria nem duradoura. E foi o que ocorreu. Uma constituinte, desfigurada pelo congresso constituído, para redigir a Carta Magna das Corporações. Remendada e piorada a cada remendo. Cidadania de retórica e patronato de privilégios.

Aliados antigos e beneficiários do regime decaído assumiram o comando da transição.

Para assegurar sossego ao domínio dessa desordem foi escancarada uma porteira para o estouro das corporações. Castas elevadas à condição de inalcançáveis pelos poderes tradicionais. Se há uma coisa que necessita de tradição é a prática democrática.

No Brasil, inovou-se para pior. Negou-se a tradição inaugurada em 1946 e recriou-se a cavilação. Da esperteza nobiliárquica do legalismo, do bacharelismo e do corporativismo “meritocrático”.

Sem falar na manutenção do Jaboticabal da vitaliciedade em cargos de indicação política, sem o concurso exigido na própria Carta. A vitaliciedade só se justifica na Magistratura. Só. Fora disso, é contorcionismo de malandragem.

Repito o que já disse aqui: O constituinte de 88 salvou sua biografia ao prever, no Ato das Disposições Transitórias, uma reforma geral da Carta após cinco anos da sua promulgação. Seria a forma de corrigir equívocos e chamar à ordem o feito que produziu um monstrengo ao calor do afogadilho. Essa reforma recolocaria a redemocratização nos eixos.

Os mesmos que aí estão, ou por seus descendentes, não fizeram a reforma prevista. Atores da mesma peça bufa, da burlesca encenação. Em não sendo feita a reforma, chegou-se à senilidade institucional.

Tudo desaguado nessa democracia de cangalha. Estado Democrático de Exceção.  Confissão pública dos outros Poderes da incapacidade atributiva. O País entregue ao quem sabe e ao talvez. A vida merecendo o risco do talvez e do quem sabe.  Com licença de Alencar Furtado, no discurso libertário. Tempo em que a vida também valia pouco.

Hoje, a vida vale nada! Todo o aparato repressivo volta-se para a defesa do patrimônio “público”. Sem prevenção. Só repressão, ineficiente e inútil. A corrupção faz a festa, dos corruptos e dos seus “combatentes”.

Enquanto as ruas são propriedades dos bandidos e as casas presídios desguardados.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
domingo - 25/12/2016 - 12:26h

O uso do tempo


Por François Silvestre

De minha parte, sobre o uso do tempo, sempre o fiz para viver. Sempre, e não me arrependo.

Leitura, escritura e trabalho são coisas para as sobras do tempo. E vez ou outra ainda dá para furtar algum tempinho dessas sobras para coisas fundamentais.

Fundamental é viver. O resto é sobremesa.

Num dos livros de Júnior de Maneco ele conta um fato que serve a esse texto. Diz ele que um amigo seu, não lembro do nome, informou que um jovem literato da terrinha, de cujo nome também não lembro, queria conhecê-lo.

E lá se foram os dois à casa do intelectual. Era hora da ceia. Foram recebidos pela empregada da casa, que os levou à sala de jantar.

O jovem intelectual estava tomando sopa e lendo um livro. Nem olhava para o prato.

Cumprimentou os visitantes e voltou à leitura.

Júnior de Maneco, vulgo Manoel Onofre, pensou: “Taí um homem que adora os livros”.

Foi a sua leitura do episódio. A leitura que fiz, ao ler o relato, foi diferente.

Pensei assim: “Taí um cabôco que detesta sopa”!

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 18/12/2016 - 09:30h

Estopa rasgada


Por François Silvestre

Estamos irresponsavelmente adiando o inadiável. Postergando o impostergável. Acobertando o inacobertável. Camuflando o inescondível.

A ordem institucional nascida em 1988 esgotou-se. Exauriu-se. Atrofiou-se e padece de infecção generalizada, septicemia que paralisa poderes, órgãos e gestões.

Essa conversa de que as Constituições devem envelhecer para consolidar democracias não se refere à nossa cultura político-institucional. Somos, os latinos dessa América, sociedades movidas pela transitoriedade.

É da nossa tradição. Do nosso jeito de ser. Pois que sejamos o que somos e não o que são os nossos dessemelhantes.

O Brasil é um país ainda experimental. Em formação de povo e de instituições. Nossa História se faz em ciclos e não em amadurecimento continuado. Um ciclo morreu. Que nasça outro. Como a morte e coroação nas antigas dinastias.

Dizia Sartre que o Direito e a Moral não determinam as relações sociais, cujos matizes têm causas nas condições econômicas. Mas acentuou que tanto o Direito quanto a Moral exercem uma ação de retorno na infraestrutura, que muitas vezes você pode julgar uma sociedade pelos critérios morais e jurídicos que ela estabeleceu.

Há, no país, um esgarçamento político tão visível e marcante a influenciar negativamente a economia, que você fica na dúvida para localizar o que é causa ou consequência.

O esgarçamento institucional, acima referido, começa a tomar contornos fora do “controle” estabelecido. Os privilégios desqualificam o poder de controlar. E a pobreza retornando à condição de miséria.

Vimos recentemente um fato simbólico desse descontrole. Decisão monocrática do Supremo ignorada pela Mesa do Senado. “Desobediência” do não cumprimento.

Fato isolado? Nem tanto. Contornado, o episódio deixa um alerta. Foi uma desobediência localizada, no meio do atrito entre os poderes.

Pelo andar da caravana, logo teremos desobediência civil generalizada. Num quadro de economia em processo falimentar, descrédito político, bagunça institucional, e confusão de prerrogativas, quantos serão “obedientes”? E quando essa desobediência generalizar-se quem vai controlar?

A superação de um ciclo é o nascimento do ciclo novo. E isso só será possível com a feitura de nova ordem institucional. Pela força de uma Constituinte Originária.

Exclusiva. A ser dissolvida após a promulgação da carta Constitucional. Quarentena dos constituintes, proibidos de participarem, como candidatos, nas eleições seguintes e gerais que formarão o novo poder constituído.

Com candidaturas avulsas, sem prejuízo das candidaturas partidárias. Com isso, as corporações e entidades da sociedade civil, não profissionalmente politizadas, poderão ser representadas sem a hipocrisia atual.

Qualquer outra saída será remendo, no rasgão da estopa.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 11/12/2016 - 10:12h

Cabra-cega


Por François Silvestre

Saltei do ônibus debaixo de uma neblina que imprensava os ossos. O Alecrim, que conhecia de nome e fama, era mais do que pensara.

Maior de tamanho do que imaginara. Mais gente do que jamais vira tantos juntos. Caicó, a maior vista até então, recolhia-se pequenina.

O Diocesano, que fora instrução e Casa, seria apenas retalhos brancos da despedida de inocência. Como nos versos de Navarro: “Vestes pretas cobrem meus pecados mortais./ Roupas brancas, nunca mais”.

Depois, para o Centro. E da Rio Branco para a Casa do Estudante. Uma nova morada? Muito mais do que isso. Uma nova vida pedindo arrancho ao mundo. E a novidade é a descoberta diária, a cumplicidade horária e o alumbramento que se estabelece nas relações da vida com a adolescência.

Casa do Estudante. A fisiologia, secundária. A vida cobrava sonhos. E o estômago não se presta ao sonhar. A bóia era escassa. A bandeja dividida em partes, com poucas delas ocupadas.

Feijão macaça, preto pela idade, em cujo caldo de água e óleo boiavam gorgulhos. Na pequena parte, à direita, uma batata doce. Na parte esquerda, um naco de rapadura. Na parte de cima, a “mistura”, que podia ser farofa de ovo.

Quando faltava água, descíamos até ao Paço da Pátria, onde havia um pequeno cacimbão. Com uma panela de alumínio, amarrada à tampa da cacimba, tomávamos banho.

Ao final da tarde ou início da noite, de roupa trocada, saíamos para a rua. Para o colégio, nos dias comuns; para o passeio nos fins de semana. Não permitíamos a ninguém o direito à piedade. Pobres e dignos, feito um mendigo espanhol. Éramos iguais, mesmo entre conhecidos de famílias ricas, que estudavam nos colégios particulares.

O Salão Nobre, de pobre nobreza, amparava estudos e entusiasmo.

Nossos colégios eram públicos. Tão bons quanto os outros. Atheneu, Pe. Miguelinho, Anphilóquio Câmara. Geralmente os mesmos professores. Disputávamos em pé de igualdade as aprovações nos vestibulares.

Desses colégios; Marista, CIC, CPU, eu vim a ser professor, preparando alunos para o vestibular. Alunos que hoje são muito mais importantes do que eu, e ainda me prestam a homenagem com mimos e elogios. Com amizade e generosa deferência.

Era um tempo de luta. Sem heroísmos. Apenas a oferta que a História faz, a algumas gerações, por escolha do destino, do desafio à edificação de sonhos. E não se edifica um sonho coletivo sem desprendimento e generosidade.

Mas havia uma Pátria. Mesmo dividida. Nos porões, o miasma de sangue e sêmen no útero fedido dos seus cárceres. No escondido das ruas, a penumbra da resistência. “Um estranho cheiro de súplica”.

Se não a Pátria ingênua de Olavo Bilac, do Hino à Bandeira, uma Pátria mendigando amparo. E a crença da feitura.

E hoje, cadê a Pátria? Aí está. Brincando de cabra-cega.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
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domingo - 04/12/2016 - 09:47h

Tá ruço!


Por François Silvestre

Havia um tabelião cá dessas bandas, metido a culto, porque lia aquela revista americana, Seleções do Reader’s Digest, que odiava a palavra comunismo.  Benzia-se quando pronunciava a palavra maldita.

De certa feita, do bar onde bebia, ele ouviu um cigano anunciar a venda de um burrinho. “Veja e pegue, ganjão! Esse jovem e fornido burro, elegante e ruço, braiador e galopante, pela metade do que vale”.

Lá do bar, o “culto” Aluir, cujo nome  dizia significar “aquele que alevanta”, fez graça com o cigano: “Num pode prestar um animal que veio da terra do comunismo, cruz credo!”.

Zé Garcia, o chefe de grupo cigano, estava vendendo o burrinho. Ouviu a besteira do tabelião e resolveu dar o troco. Coisa que ele fazia com sutil esperteza.

“O que disse, ganjão”? Ao ouvir a pergunta, o “doutô” Aluir veio para a calçada e confirmou. “Disse que esse burro veio da terra do comunismo. Você assim falou”.

Zé Garcia não tinha instrução acadêmica, mas era bem instruído nos conhecimentos que angariara dos cordéis e dos violeiros.

E essa é uma universidade dos sertões. Sem profundidade especializada, mas bem abastecida de informações gerais. “Ganjão, eu só disse que o burrinho era ruço e braiador”. Armou a cilada. Aluir completou de peito ancho: “Isso mesmo. Você é de poucas letras, mas eu não. Intendeu”?

O cigano fulminou: “Tá certo, ganjão. Sou mesmo de poucas letras, só quatro delas no ruço do burrinho. No do senhor tem cinco”.

Provocado por Godofredo Lucas, meu colega do Diocesano de Caicó, de quem guardo lembranças e saudade, o texto vai ao Sertão de sabedorias e feiras.

Tá ruço, Godô. Sabedoria por aqui bateu retirada. A desculturação, influências alienígenas das “metrópoles”, burrada cultural, violência, negócios escusos, tudo tem enterrado a sabedoria dos grotões.

Ciganos, não mais. Feiras, extintas. Burros e jegues abandonados nas beiras das estradas. Ninguém os quer, nem de graça.

A cigana Honorina desgrudou-se do grupo e foi ficando por aqui, nunca mais partiu. Dava plantão na feira de Umarizal. Certa vez encontrou Joaquim de Alencar, escorado num balcão da loja de tecidos. Filho de Quinquim dos Cajuais e neto de Bizinha Suassuna, Joaquim era um desses dos quais você fala.

Honorina aproximou-se e propôs. “Ganjão, deixe eu fechar seu corpo; só cinco minréis”. Joaquim retrucou: “Só pago se ficar fechado mesmo”. Honorina: “Eu garanto, se num fechar num paga”.

A cigana pegou-lhe a mão e começou a leitura. Após dizer do passado e do futuro, fez a benzedura do fechamento. Pediu pra Deus o proteger de maus vizinhos.

Fechou a mão do consulente e completou: “Pronto ganjão. Tá fechado o seu corpo”.

Joaquim foi enfiando a mão no bolso “para pagar”, quando soltou um estrondoso peido. “Eita cigana véia! Ficou um buraco aberto. Num pago não”.

Té mais.

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
domingo - 27/11/2016 - 07:18h

Ode ao jumento


Por François Silvestre

Não bastasse a crise financeira, econômica, social, política, de costumes ou a maré alta de preconceitos, ainda temos de conviver diariamente com a “inteligência” furibunda dos intolerantes.

Se você disser que José Dirceu foi um ídolo seu na mocidade, mas entregou-se, por delírio do poder, à mais reles e suja das relações como o mesmo poder almejado, que é a corrupção; pode esperar porrada.

Haverá sempre um intolerante petista ou congênere armado com a mais pueril das argumentações para fulminá-lo com virulência verbal, principalmente na internet.

Se você disser que o Poder do Estado constituído, não pode exercer vingança contra quem quer que seja, ou execração pública, mesmo contra o mais nojento dos bandidos, corrupto ou pedófilo, traficante ou sequestrador; pode esperar porrada.

Haverá sempre um hipócrita de plantão arrotando santidade e cobrando sacrifício público contra os impuros. Principalmente na internet.

No meio da serenidade, onde habitam os sensatos, cientes de que ser honesto é uma obrigação de todos, não motivo de festa, e que todos nós, sem exceção, somos frágeis, passíveis de delinquir, fica difícil opinar ante a fúria do moralismo intolerante.

O moralista cristão retira da Bíblia, crônica dos hebreus, povo mercantilista e messiânico, apenas os textos que alimentam sua intolerância. E os há de sobra.

O moralista muçulmano retira do Alcorão, poema em retalhos de um belo poeta e profeta delirante, apenas as estrofes que justificam a violência.

O moralista de esquerda ainda guarda nos alfarrábios da decoreba os mesmos textos repetidos nas passeatas libertárias. Ditos por ele ou ouvido dos ancestrais. Não admite revisão, nem discute argumentos. O maniqueísmo é seu alforje.

O moralista de direita faz da “moral” sua penumbra. E no escuro da intransigência esconde sua ganância, guarda sua sujeira e delicia-se a apontar nos outros os próprios defeitos. Está na outra ponta, a trezentos e sessenta graus, bem próximo do seu inimigo da esquerda.

O que tem o jumento com isso? O jegue, hoje abandonado e esquecido, foi um edificador dos sertões. No seu dorso, em pequenos caixotes de madeira, presos às alças da cangalha, era carregado o material para a feitura dos açudes.

Há uma coisa do jumento que o matuto não venera. O som que ele produz. O relincho. Alto e feio, o sertanejo fez uma onomatopeia da parte final do som, reduzindo o nome para “rincho”.

Uma perfeição fonética. Relinchar, não. Rinchar. E o pobre jegue, que transportou a família do carpinteiro, fugida de Herodes, para que Maria desse à luz o Nazareno, sofre a discriminação de produzir o som mais feio de quantos trinados e mugidos belos produz o sertão.

O intolerante, igual ao jegue, não pensa, não argumenta, não discute. O intolerante rincha.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 20/11/2016 - 07:56h

A metáfora do escuro


Por François Silvestre

“Cessem do sábio Grego e do Troiano/ as navegações grandes que fizeram;/ Cale-se de Alexandre e de Trajano/ A fama das vitórias que tiveram;/ Que eu canto o peito ilustre Lusitano,/ A quem Netuno e Marte obedeceram:/ Cesse tudo o que a Musa antiga canta,/ Que outro valor mais alto se alevanta”.

Camões inicia duas aventuras épicas. A intencional: de responder a Homero que fincara nos versos a aventura dos gregos e a Virgílio, que cumprira papel semelhante na origem da aventura latina.

A segunda não foi intencional: estruturar o esqueleto de um idioma. A “última flor do Lácio, inculta e bela”; do dizer de Bilac. Que responderia à pergunta do tempo: “ora direis ouvir estrelas”.

Era o português uma algaravia, desde 1139, (Sec. XII) que se confundia com o galego, a linguagem da Galícia. Ganhou contorno morfológico com a obra teatral de Gil Vicente e o Cancioneiro de Garcia de Resende, (Sec. XV). Porém, foi a épica camoniana (Sec. XVI) que teve o mérito de criar o arcabouço sintático da língua que nos define.

Os Lusíadas, muito mais do que a louvação heroica das aventuras marítimas, é uma fábrica de metáforas. O forno que modelou uma forma de compor versos, na língua nascente.

A metáfora consegue remodelar o conteúdo opaco para fazê-lo brilhante, na forma recriada. Não fosse ela, a poesia seria apenas uma repetida composição de rimas. Sonoridade vocálica, pobreza poética.

A rima, nos Lusíadas, é pobre. Combinando mais das vezes desinências verbais. A metáfora, não. E é delas que ele tira a tintura dos versos para engrandecer pequenos atos. Ao dar-lhes feição maior do que o gesto.

A aventura grandiosa da circunavegação Lusitana vai se desenrolando ao apelo metonímico da mitologia. Com a cumplicidade de Vênus e Marte, sofrendo a oposição de Baco e Netuno.

A metáfora produz poesia. Ela é a rainha das figuras na composição do estilo. Dando nós onde há linha lisa e alinhando a linha onde há nós. Mesmo que seja poesia de pedra, rústica ou polida. Afagando o ouvido ou a leitura.

Dante, Shakespeare, Neruda degustaram metáforas. E deram vida à poesia nossa de cada dia. O resto não é resto, é metáfora do que resta da sobra. Onde se escondem os verbos nos porões da zeugma ou se omitem os nomes, nos escaninhos da elipse.

Aí não se pode esquecer a política nossa de cada noite. No Brasil de hoje, só a língua, mesmo maltratada, ampara a Pátria.

Só que a metáfora na política é a tentativa de esconder a verdade, muitas vezes feia, para vender a mentira falsamente bela. E o povo, metáfora da abstração, deixa-se enganar concretamente na mesma cumplicidade da metafórica democracia de faz de conta.

Na circunavegação da falsidade, institucionalmente estabelecida, senhora dos poderes e controles, o embuste ético humilha a língua de Camões.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 06/11/2016 - 07:20h

A educação pela crise


Por François Silvestre

Não é fácil conviver com a crise. Nem com a seca. Nem com a escassez. E menos ainda com a “ética” dos métodos, banquete de hipocrisia. Pra cada sujeira apontada no quintal vizinho, um charco de lama na própria soleira.

Já houve quem sustentasse não ser pessimista para não parecer chato; nem otimista, para não parecer bobo. E chegou a inventar o realismo consciente. A moderação na crença e a tolerância no descrédito.

O candidato contamina-se de otimismo para convencer o eleitor a segui-lo. E ao eleitor é oferecido um pacto de entusiasmo. E a surrada promessa de mudança. E ambos fingem. Cada um no seu botão.

O eleitor se faz de besta e oferece o bolso bobo para receber a prebenda do esperto. O eleitor sabe que seu voto é uma mercadoria e o candidato intui que o comprado e pago não comporta cobrança.

Mesmo assim e talvez por isso mesmo a crise seja um rompimento de trevas. Uma lanterna a clarear no quarto escuro. Um puxão de orelhas da realidade. A crise institucional escancara-se. Mais grave do que a econômica. A economia se arruma. Instituições sem crédito não se recuperam. Só com nova ordem.

Nem a Democracia é plena nem o voto é livre. Fosse livre, o voto não seria obrigatório. Tanto a Esquerda quanto a Direita defendem o voto obrigatório. Por quê? A Direita sabe que o voto livre seria muito mais caro. E a esquerda sabe que o voto voluntário seria muito mais exigente.

A Direita precisaria de mais grana para arrancar alguém de casa e a Esquerda precisaria revisar a baboseira sofista para convencer o eleitor desobrigado de votar. O voto obrigatório é democracia de curral.

A crise rasga a mentira. O discurso, a liberdade do voto, a promessa, a propaganda, os debates ocos, a mídia venal, a fiscalização de fachada. Esse é o útero onde se fecunda o óvulo do embuste e nasce feto da crise.

Os candidatos são espermatozoides. O eleitorado é o óvulo maduro a esperá-los, no cérvix da urna. No ovário, eles se encontram. Após a caminhada difícil que veio do gozo, enfrentando cada um a hostilidade da militância inimiga.

E a conquista? O candidato excitado penetra o cio da militância. Os lados oponentes abrem as pernas do povo, no berço esplêndido. E há o coito. O resultado do coito é o coitado.

Reina o Estado Cérbero, falido, e suas castas famintas de privilégios e empanzinadas de hipocrisia.

E a seca? Apenas “uma eterna e monótona novidade”, como disse Cunha, o Euclides. Eterna porque sempre existiu. Monótona porque vem em ciclos. E novidade porque nunca nos preparamos para seu retorno inevitável.

De todo modo a crise educa, seja no aprendizado ou na reflexão. Nas trevas descobrimos o valor da luz; na retirada, recuperamos a memória do torrão. E no aperreio valorizamos a pobreza da posse escassa. A dignidade da posse que não é esmola.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
  • Lion, Moda Masculina, de João Paulo Araújo - 11-08-15
domingo - 30/10/2016 - 19:40h
O menos ruim

A dolorosa escolha do eleitor diante da “Benzetacil”


Veja abaixo a intervenção interessante da webleitora Naide Rosado, que denomina esta página sabiamente de “Nosso Blog“, sobre o dilema do eleitor do Rio de Janeiro-RJ nas eleições de hoje entre Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL) à Prefeitura.

Ela dialoga com dois de nossos articulistas – Honório de Medeiros (veja AQUI) e François Silvestre (veja AQUI) – que assinaram artigos interessantes sobre política, poder, retórica, eleições e gestão pública:

- Domingo da sabedoria. Sensacional, Prof. Honório de Medeiros. Hoje, votei sem ser persuadida ou seduzida ou por escolha definida. Votei no “menos ruim”, segundo meus critérios. E, como relatei em François Silvestre, cumpriu-se o que li na Internet :

- O eleitor do Rio de Janeiro tem como escolha, em qual parte das nádegas receberá uma injeção de Benzetacil.”

* Para quem não sabe, a tal da Benzetacil é um antibiótico que deixa a ‘vítima’ dolorida por dias. Como maltrata.

Eu a conheci há muitos anos.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI.

Categoria(s): E-mail do Webleitor / Eleições 2016 / Política
domingo - 30/10/2016 - 10:22h

Realidade versus retórica


Por François Silvestre

O atual governo é continuação. Monótona repetição de uma década, sem criatividade e vazio retórico. Do segundo governo Wilma e do governo Rosalba, que Robinson jurou não continuar“.

Quando estive na Secretaria de Planejamento, recebi uma vasta explicação sobre o programa de implantação de uma prática estratégica de governabilidade. O Secretário e sua equipe inovadora fizeram uma apresentação retoricamente impecável. Tudo com vistas à colheita de reconhecimento futuro.

Na época, não contestei. Deixei que o futuro respondesse, torcendo pelo o sucesso da retórica.

Num certo momento, o Secretário sentenciou, com muita ênfase: “Foi o discurso de um governo técnico que ganhou a eleição”.

Ouvi calado para cumprir uma regra da hospitalidade sertaneja. Quando o dono da casa pede a opinião do visitante, acata a resposta mesmo que dela discorde. Porém, quando a opinião é expressa pelo dono da casa o visitante há de retribuir com a mesma gentileza.

Silenciei, cumprindo a regra não escrita da terra e da gente de onde venho. Deste sertão profundo, cujos galhos da jitirana, a se enfronharem, refazem de infância meus olhos de criança.

Incomodou-me o gentil silêncio. Por quê? Porque o interesse histórico, que é também interesse público, obrigou-me a questionar o que se revelou retórica do entusiasmo. Ainda mais a tratar-se da história política daqui. Dessa terra que carrego no matulão para qualquer lugar aonde me leve o destino de retirante.

Não, meu caro, não foi discurso técnico que elegeu Robinson. Foi um conjunto de fatores tão marcadamente convergentes, que o discurso fica na rabeira da fila. Essa promessa técnica não ganhou a eleição nem se revelou competente no governo.

A vitória de Robinson nada deve à retórica. Foi rejeição popular ao fantástico acerto de cúpula que ignorou completamente a memória coletiva. Desmentindo outra falácia técnica, de que o povo não tem memória.

Um candidato sem máculas, simples, de comunicação fácil, contra um agrupamento de “aliados” que durante três décadas trocaram acusações e insultos. O povo reprovou o ajuntamento “heterogêneo”.

Disse o Secretário que “o tempo era outro”. Retórica do vazio. Aí estão os fatos. Este texto não inova, republico as mesmas razões, pela atualidade e comprovação de que a retórica não faz a realidade. É o inverso. A realidade desmente a retórica.

Mudança é a mais prostituída palavra de cada governo.  Na hora da disputa do voto, os técnicos são dispensáveis. E a mudança decantada é a de “que tudo mude pra que fique tudo do mesmo jeito”. Da lição de Lampedusa.

O que mudou? Absolutamente nada.

O atual governo é continuação. Monótona repetição de uma década, sem criatividade e vazio retórico. Do segundo governo Wilma e do governo Rosalba, que Robinson jurou não continuar.

A beleza virtual do quadro prometido, numa tela enorme, queda-se vencida pela realidade mal enfrentada.

E todos nós pagamos por mais uma retórica abatida em pleno voo.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
  • Repet
domingo - 23/10/2016 - 08:54h

O legalismo da patriotagem


Por François Silvestre

Dizia Samuel Johnson que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. É bem verdade que ele referia-se, inicialmente, ao partido a que se filiara, por conter a palavra “patriota” na sua denominação.

Assim como os partidos do Brasil põem nos seus nomes as palavras “democrata”, “socialdemocrata”, “trabalhadores ou trabalhista”, “humanista”, “municipalista”, “cristão”, “popular”, etc. Tudo prostituição semântica.

Pegam a semântica, abrem-lhe as pernas, na cama, e praticam a cópula, para depois gestar a cúpula. A semântica escapa pela janela e o povo cria o rebento.

Pois bem. O pensador referia-se a seu partido, mas ele próprio aceitou, sem contestação, o emprego da sua máxima para referir-se genericamente à hipocrisia do patriotismo.

No Brasil, e é dele que tenho o dever de cuidar nas minhas reflexões, só há uma categoria profissional que merece a denominação de patriotismo fora da canalhice.

São os professores primários. Das antigas escolas isoladas, dos colégios estaduais e municipais; dos grotões do Sertão aos bairros pobres das cidades. Só.

O resto é mesclado. Dos poderes às profissões diversas, em todas as áreas, das corporações às castas. Divididos em patrioteiros, patrifaceiros, patrimagogos, patrifajutos, patrilofotes, patrivangélicos, patricatólicos, patriforenses, patriparentes e até patriotas de mesmo.

Tudo posto e exposto numa vasta estante de exibição luminosa, tão clara que dá pra ver por trás da maquiagem.

E se o patriotismo é mesmo o refúgio da canalhice, o Brasil não é o país da legalidade. É o país do legalismo, que é a canalhice do sistema político da pátria viciada.

Quer ver um exemplo? Mesmo reconhecendo que a exemplificação empobrece o raciocínio abstrato, pondo a filosofia na reserva, não resisto e exemplifico.

O sistema “legal” brasileiro de licitação. Que serve aos holofotes do legalismo, às espertezas dos concorrentes e ao mecanismo de escamotear a legalidade.

Vá à Praia do Meio. No quase frontal do antigo Hotel dos Reis Magos há uma placa enorme, com a especificação dos custos da obra que tenta conter a força do mar. Veja o custo: Oito milhões, quinhentos e setenta mil, novecentos e dez reais e oitenta e cinco centavos. (R$ 8. 570. 910, 85).

Pergunto: Se você fizer uma reforma no banheiro de sua casa, que dure uma semana, terá condições de dizer com precisão quanto vai gastar? Assim: vou gastar precisamente 1.425,00 reais. Pode garantir isso? Não pode. Mesmo sem os centavos.

Imagine garantir os centavos numa obra de oito milhões. Sem previsão de tempo. E são assim todas as obras públicas licitadas. Pra satisfação do controle de faz de conta, e da cavilação legalista.

É esse o país da ordem vigente. Legalista e fora da Lei. Legalismo não é sinônimo de legalidade. É antônimo.

Té mais.

François Silvestre é escritor.

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 16/10/2016 - 12:32h

Emergente submerso


Por François Silvestre

Não faz muito tempo corria mundo uma informação de que o Brasil estava incluído no rol dos emergentes, com amplas chances de virar potência econômica. Com a descoberta do pré-sal, substituiu-se a demagogia do biocombustível pela mentira da autossuficiência energética.

É bem verdade que não se chegou à ingenuidade de incluir o Brasil entre os países de níveis sociais aceitáveis. Seríamos uma potência econômica, com desigualdades sociais ao modelo paraguaio. O emergente, hoje, é o Paraguai.

Dentre outros emergentes, caso da Rússia, África do Sul e Índia, o quadro é semelhante. Exclui-se a China pelos motivos especialíssimos que cercam aquele mundão de riqueza e miséria habitando o mesmo espaço.

A China fica fora dessa comparação exatamente por ser incomparável. Uma ditadura de casta estatal, indevidamente chamada de comunista, praticante do capitalismo de Estado. Usando mão de obra sub-humana, de baixo custo, enquanto empanturra o mundo com produtos baratos e de qualidade duvidosa.

A Rússia, que saltou do feudalismo para o socialismo de 1917, sem esgotar as fronteiras do próprio feudalismo nem iniciar as relações capitalistas, da previsão de Marx sobre o processo revolucionário de superação dos sistemas econômicos, vive a incerteza de uma economia frágil numa democracia de faz de conta. Saltou etapas, patina nas patas. Potência militar, ainda da herança soviética.

O Brasil, semelhante na euforia emergente, difere bastante da China e da Rússia. Não tem um mercado internacional de trocas sequer próximo ao da China, nem a influência política da Rússia.

Levamos algumas vantagens internas. Somos uma democracia consolidada; ingênua e marota, esperta e bocó, mas formalmente livre. Só formalmente. Materialmente, ainda estamos longe da liberdade.

Não se pode chamar de liberdade material uma realidade onde o poder público não tem autoridade sequer para combater criminosos comuns. Um aparato caríssimo dos poderes constituídos e seus agregados, perdidos na escuridão no meio de uma briga de foice e bala.

O poder público vai de foice e a bandidagem de metralhadora. Tráfico de drogas e armas às escâncaras, sem política de prevenção ou repressão.

Pois bem. De emergente para a emergência. O Produto Interno Bruto empacou, encruado na estagnação. Inflação diária. Liberdades públicas só na Lei, sem chegarem às ruas. Ou aos lares.

Potência? Só se o resto do lado rico do mundo empobrecer, chegando a nós.

Demagogia e mentira armam a tenda e se aboletam no poder. Mentem governo e oposição.  A atividade política regrediu no caráter e prosperou no embuste.

Economia, sem rumo. Segurança pública, um terror. Saúde pública, um tumor. Educação pública, uma lástima.

Creio no futuro do Brasil, por ele mesmo, mas não confundo esperança com ingenuidade ou fanatismo.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 09/10/2016 - 07:52h

O gigante apequenado


Por François Silvestre

O Brasil é grandioso na geografia, na exuberância da natureza, na cultura popular. É grandioso na arte. No festivo e nos folguedos. Mais ou menos no esporte, menos que mais no futebol. É um dos maiores, na hipocrisia.

Porém, entretanto, mas porém, como dizia Zé Limeira, é o Brasil um país institucionalmente apequenado. Historicamente duvidoso, juridicamente inseguro, socialmente injusto, culturalmente abandonado.

Acabamos de sair de uma eleição municipal, no meio de uma crise quase sem precedentes. Falência do erário e quebradeira empresarial. Promiscuidade nas relações do poder público com a atividade empresarial.

Eleições livres? Sim e não. Livres na forma da Lei. No aparato formal, na lisura da apuração. Não se nega. Mas a liberdade é muito mais do que isso.

Eleição realmente livre não se atrela ao poder econômico. Não depende de quem detém o poder, principalmente nos municípios, onde a dependência da população é quase insuperável.

Há exceções? Sim. Porém, o raciocínio analítico sustenta-se na regra. Mesmo reconhecendo as exceções.

E é com o arrazoado do excepcional que temos visto e lido todo tipo de constatação sobre o resultado dos pleitos. Das constatações pueris aos argumentos mais fronteiriços da asneira.

Uma coisa é certa: O Brasil vive um dos seus momentos históricos de maior pobreza. Aqui a palavra pobreza sai do campo da exceção generosa para a regra generalizada.

Pobreza política, institucional, social, econômica. Saímos de uma vasta mentira de inclusão social. Esmola sob a farsa dessa “generosidade”, que era apenas um projeto de poder. No processo de esmolar, só o doador se sai bem. Pois faz a catarse de consciência e aquieta o necessitado

Quando cessa o efeito da esmola, o “status quo” anterior retorna com mais violência e mais pobreza.

Abstenção, voto branco ou nulo, conscientemente, tem a força da contestação. Infelizmente, num país nivelado pela mediocridade de cidadania, fica difícil aquilatar o nível dessa consciência.

O voto obrigatório é uma demonstração de que nem os políticos nem a Justiça Eleitoral confiam no próprio taco. Na Democracia respeitável, o voto é direito e não dever.

Mediocridade política e institucional; na vida pública e privada, onde o que é privado se locupleta na teta pública, e o que é público se completa na privada. Com todos os sentidos.

Exemplo dessa promiscuidade deu-se no quase assassinato da nossa maior empresa. Um orgulho acabrunhado. A Petrobrás foi assaltada com uma brutalidade que a corrupção superou a si mesma. Caiu o mito da eficiência privada, com a constatação da roubalheira praticada por grandes empresas, cooptadas pelo poder público larápio.

É esse o nosso tempo. Sem segurança, sem saúde, sem educação. Sobra a ideologia da estultice e da mediocridade!

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 25/09/2016 - 13:12h

Quem vai investigar o esperancídio?


Por François Silvestre

Vi o nascimento do PT. Estava na praça, no primeiro comício da sigla nascente, em São Paulo Capital, depois de inúmeras declarações de Lula de que não pretendia ser político profissional ou filiar-se a partidos políticos.

Esse comício não foi o primeiro do partido recém-nascido, mas o foi o primeiro na Capital, após outras manifestações no ABC paulista. Lembro-me daquela noite, com imagens já meio embaçadas. Numa dessas lembranças, as vaias recebidas por alguns convidados que não se enquadravam na exigência purista da militância exigente e sectária.

Praça Craveiro Lopes. Cercanias da Bela Vista, vizinhança do Bexiga, caminho para chegar ao lado Oeste da Praça da Sé. Da pequenina travessa Japurá via-se a multidão em fúria. Não de raiva física, mas de furor ético.

O bar do Ramón, que tem destaque geográfico n’A Pátria Não é Ninguém, fervilhava. A Rua Abolição desaguava naquele mar.

Não posso dizer que registro a fala integral de Lula. Mas nunca esqueci sua explicação para desmentir a promessa de que “nunca serei político nem quero saber de partidos políticos”. O PTB de Vargas houvera sido, segundo ele, um clube de pelegos. Trabalhador não era sinônimo, nem representado, do “trabalhismo”.

E aí a justificativa para desdizer o que dissera. Para fazer o que prometera nunca ser feito. Naquele momento quem iria imaginar que aquela promessa quebrada seria apenas o feto de uma criança que nasceria robusta, chegaria à adolescência irrequieta, faria oposição com dignidade e envelheceria precocemente, com rugas e verrugas, no mesmo lodo do poder que tanto criticara.

Em política, nenhuma promessa carrega o cabelo do bigode. E Lula, naquela noite, pôs a barba completa na promissória. E a história demonstrou que o documento não foi resgatado.

Há uma hipoteca rondando a posse desse imóvel. Só a posse, pois a propriedade nunca foi do povo. Nunca foi e certamente nunca será.

O maior crime não foi misturar-se aos hábitos dos inimigos antigos, aliados na refeitura das conveniências. Aliados e cúmplices. Foi um grande mal. Mas não foi o mal fundamental.

Os aliados, também falsários da ética, já vinham dessa prática. Esperar o quê deles? Quantos deles, puristas de fancaria, estão enlameados no mesmo charco? Quase todos.

E quase todos viraram aliados. Essa prática desmentiu o discurso da Praça Craveiro Lopes, naquela noite que se embaça na penumbra de tantos erros e incontáveis decepções.

Mas repito que não foi o crime maior. Mesmo que seja o crime “preferido” dos templários, numa cruzada ética em busca de uma Jerusalém inexistente.

O maior delito foi matar a esperança. Ou retrancá-la na Caixa de Pandora. O sonho da inclusão social virou pesadelo da exclusão. Esperancídio é o nome desse crime.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
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