domingo - 20/08/2017 - 10:12h

Romance de costumes


Por François Silvestre

Fosse o Brasil apenas um personagem, seria de um romance de costumes. Não caberia nos textos de um romance épico ou romântico; e muito menos nas densas páginas de um romance heroico.

Não seria de guerra, mas de violência. Não seria de revolução, mas de golpes. Não seria de história, mas de invenções. Não seria de política, mas de trampolinagens.

Não seria de qualquer escola clássica. Nem do renascimento. Não teria o mistério penumbroso da Idade Média nem o estoicismo do sofrimento romântico. Não descreveria serenatas nem empunhava espadas. Seus espadachins fugiriam antes do duelo.

E por ser um romance de costumes, seus personagens também são contumazes. Não desistem nunca da safadeza consuetudinária. Refinada Inteligência do embuste, argumentadores a matar de inveja os sofistas gregos.

O que não fariam com esse material Machado de Assis, Joaquim Manoel de Macedo, Eça de Queiroz, Lima Barreto, O Barão de Itararé, Bocage, Gregório de Matos e outros do mesmo espírito?

Posto que num romance de costumes sujos, nada como a lente de um gênio a lavar a alma dos roubados.

Mas eu dizia que os personagens precisam merecer destaque na sujeira. Veja um deles. Promotor de Justiça, responsável por uma “meritória” campanha de furor ético. Chegou à capa de uma revista semanal, das mais famosas. Vestido de mosqueteiro.

Sua luta intensa contra os corruptos o levou ao senado federal. Uma Casa empanzinada de personagens típicos desse romance. Da tribuna, ele apontava o temido dedo. E ai de quem fosse o apontado.

Um dia, o dedo voltou-se. Um corruptor confessa e prova que o ilustre personagem era cria sua. Marionete dos seus interesses sujos. Onde anda o personagem? Nalguma página esquecida do calhamaço. Não basta ser corrupto. Precisava sê-lo combatendo a corrupção.

Ao retomar os rumos das liberdades políticas, o personagem Brasil institucionalizou-se. Nesse quadro de formal democracia, novos partidos ocuparam as páginas.

Um pôs um “P” antes do antigo e heroico nome. Outro trocou o “trabalhismo” por “trabalhadores”. Um terceiro, dissidente, vestiu-se de social-democracia. Cada um com sua farsa. E um rebanho de outros figurantes.

O pior de tudo é que de antagônicos na aparência uniram-se na semelhança. Na mais escandalosa união de oponentes para juntos esconderem a ficção, fazendo-a real de fato.

No panteão dos iguais, hastearam a mesma bandeira. Num mastro chantado no pedestal da fossa. Cuja franja, desencarnada, tremula aspergindo o miasma fedido de uma pátria marrom.

Os leitores desse romance não o reescrevem por preguiça mental. Ou desleixo com a leitura. Ou cansaço de aprender. Ou até, e pior que tudo, por afinidade com os personagens. A síndrome do roubado a identificar-se com o ladrão.

É com essa bandeira, não há outra, que os mesmos pilantras levarão os bocós às ruas novamente. Às ruas ou às páginas? Já que é apenas um romance. De maus costumes.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
quinta-feira - 17/08/2017 - 16:48h
Política e polícia

“Amizade” nas quadrilhas


Por François Silvestre

O desgosto entre quadrilheiros começa na partilha do butim. Porém, os menos aquinhoados permanecem quietos enquanto dure a liberdade de agir.

Seguem os líderes, acumulando um ranço morno, que vai esquentado com tempo. Até que a quadrilha seja alcançada.

Quando caem, desaparece qualquer sentimento de afeição.

O que parecia afeto, era apenas medo ou interesse. Aí, o que se sentia injustiçado empurra o que pode, de pior, para o chefe privilegiado.

A cumplicidade nas quadrilhas não guarda nenhum sinal de amizade.

É ódio adiado.

Taí as delações que confirmam o dito.

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Categoria(s): Artigo / Opinião
  • Repet
domingo - 13/08/2017 - 09:30h

O fim da reflexão?


Por François Silvestre

O mais grave na desumanização contemporânea não é a violência contra a espécie humana. Mesmo que essa violência seja a marca determinante desses tenebrosos tempos.

Adjetivar o tempo, por si só, já diz negativamente contra a nossa época. Negação da belle epoque.

Até a hipocrisia, “vício que presta homenagem à virtude”, perdeu a face suave da falsidade. As expressões de saudação, de apresentação ou de agradecimento cedem lugar à pressa do resmungo.

Não há encontros, há encontrões. Nem cumprimentos, só encenações. Reina um mau humor, carões e testas engelhadas, numa pressa para ir a lugar nenhum. A antipatia coletiva facilita a violência, pois cada um procura abrigar-se nas grades do egoísmo.

A solidariedade isola-se, desprotegida de motivações e argumentos. Apontar o dedo acusador justifica, na maioria dos casos, frustrações pessoais. Mesmo quando a acusação é procedente, há excessos no pudor acusatório. É como se alguém fizesse a catarse das suas culpas escondidas, ao expor à execração o alvo da sua fúria.

Fôssemos tão puros quanto parecemos na acusação, não teríamos produzido tanta impureza. Ou o que aí está, navegando em lama, não tem algo do nosso disparo? Tem e muito. É só uma questão do flagrante. Como diria Mia Couto, “todo tiro certeiro carrega algo de quem dispara”.

Somos o tempo da desvocacionalidade. Não há vocação, há escolha pelas imposições do mercado. E no caso dos cargos públicos, a vocação se consuma no contracheque.

Após a posse, começa o processo de preencher a vocação adquirida. Como ocorre no organismo ao contrair uma moléstia não congênita. Neste caso, é a moléstia de caráter que se adquire.

E esse caráter deformado vai fiando a tecedura do tecido social, que se esgarça precocemente ante a má qualidade dos fios tecidos. Teares de tapetes rotos.

Disse no início algo que parece uma estupidez. Como se houvesse dito que a violência é secundária. Pior, a violência contra a espécie humana. Não. Não é secundária. Porém, não é o mais grave. Por quê? Porque ela é consequência e não causa.

A gravidade fundamental está na causa. A decorrência é subsequente. Portanto, de gravidade inferior. Mesmo sendo tão ou mais agressiva do que a própria causa. Isso não é apenas um exercício dialético. É uma tentativa de reflexão.

Contudo, aí está outro mal do nosso tempo: a abstinência do pensar. Ninguém quer perder tempo com a reflexão. Individualmente, se você não reflete não faz autocrítica. Coletivamente, a não reflexão transforma povo em massa. E de massa vira boiada.

Quem está na boiada delega a outrem não apenas as decisões, mas a própria opinião. Não decide nem opina. Não se aprendeu a lição de Stendhal: “Se não posso mudar de opinião, ela será o meu tirano”.

Adere a partidos como a escolha do time de futebol, ainda na infância. E segue torcedor daquele time pro resto da vida. Quem age assim, e tem sido a regra, decreta o fim da reflexão.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
sexta-feira - 11/08/2017 - 08:28h
Falsidade amiga

Ódio cordial


Por François Silvestre

“Nós nos odiamos cordialmente”, disse Vulpiano Cavalcanti, a Anchieta Jácome, referindo-se às relações entre os médicos.

Porém, é possível estender essa assertiva a todas as relações pessoais dos nossos tempos. Entre governos e administrados. Entre artistas. Jornalistas. Internautas. Autoridades jurídicas. Religiosos.

Há em todo lugar um ódio morno e líquido saciando a sede de vaidades e frustrações.

É bom lembrar que a água quente ou gelada não produz vômito. Só a morna.

E o ódio cordial é uma falsidade amiga.

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Categoria(s): Opinião
  • Lion, Moda Masculina, de João Paulo Araújo - 11-08-15
terça-feira - 08/08/2017 - 15:56h
Opinião

Empréstimo e esmola


Por François Silvestre

Vejo nas folhas que o governo do Estado pretende tomar dinheiro emprestado para atualizar o pagamento de servidores. Rosalba Ciarlini fez isso com o Fundo Previdenciário. E o Fundo foi pro fundo, do poço.

Logo depois, voltou o atraso na Folha. O que se quer agora?

Toma-se dinheiro emprestado e se põe o pagamento em dia. Até quando? Até vencer as eleições e começar tudo de novo, com o mesmo atraso. Empréstimo e esmola só servem no momento da aquisição.

Acabado o dinheiro do empréstimo ou da esmola, volta tudo ao status anterior.

Nem precisa ser inteligente para concluir isso.

Leia também: Robinson tenta atualizar salários com empréstimo bancário AQUI.

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Categoria(s): Política
domingo - 06/08/2017 - 11:02h

Carta recebida


Por François Silvestre

Petrópolis, 05 de Agosto de 2017.

Meu caro François:

Acho que preencho os dois requisitos que você estabeleceu para a leitura de sua missiva, mesmo compreendendo muito bem o intuito dela. O que reduz o mérito da ignorância.

Moro em Petrópolis, numa bucólica rua próxima da Encantada de Santos Dumont. Mas não sou daqui, pois nasci em Portalegre. Papajerimum da Serra.

Devo ser mais novo do que você; como sei? Sobre a morte do seu pai, assassinado no meio da rua, aí na minha cidade, eu li que você tinha entre dez ou doze anos, eu ainda engatinhava. Vim a saber dos fatos muitos anos depois. Meu pai contava que eles eram grandes amigos. Um crime covarde e brutal, que marcou a história daquela cidade.

Mas isso é outra e triste história, que não vem ao caso. Apenas para situar meu interesse nessa resposta, que espero não estar enchendo o saco ou descascando feridas.

Tenho lido, desde muito tempo, seus textos do Domingo. E vez ou outra eles dão causa a discussão aqui no barzinho, de frente para o Palácio Rio Negro. Petrópolis amanheceu sob chuva fina, com cinza na serra imitando as daí.

Li e me credenciei como destinatário. Sou seu desconhecido e também ignorante. E como você disse que se dirigia a destinatário semelhante ao remetente, ouso chamá-lo de colega.

Posso? Se a resposta for sim. Então Lá vai. Mesmo sem ser o imperativo de lavar. Ou seria lavái?

Di-lo-ei sem sobroço que fui ao Bechara, e tava lá. Evanildo foi nosso mestre? Digo, sem mesóclise, “nosso”, se você me aceitar como colega. Essa língua é complicada, pois eu não como colega. Bem, teve uns tempos de internato, em Mossoró… Não conto nem sob tortura.

Pois, pois. Li sua carta e fiquei matutando. O que danado quis dizer esse conterrâneo, que nem conheço pessoalmente, sobre desconhecido ignorante?

Isso é anonimato ativo ou passivo? Tem o corrupto ativo que é o comprador do “agente público”. No caso, o agente é passivo. Quando na verdade passivo é o povo, que se ferra. Né assim? Quem come né ativo?  E o povo né comido?

Mas voltemos ao anonimato. Quando você assina não é anônimo. Quando você esconde o destinatário, tá criando um tipo novo de anonimato. É anônimo ativo ou passivo? Quem come quem?

E essa história de ignorante desconhecido, apesar do anonimato passivo, carrega um certo achado. É curioso que li e fiquei assim, abobado. Será comigo? Ou não tem por onde, como diria o Chaves?

E o achado tá nisso. É difícil não se achar desconhecido e ignorante. Principalmente na solidão, diante desse mundaréu de sabedoria jogada no lixo diariamente.

Nessa confusão de aconchego fácil e falso da internet. Quando o bom é conviver na pele, roçando a pele. No abraço, aperto de mão, beijo, briga, discordância.

Na visita, na despedida, na chegada. Nos apertos, nos afagos, nas intrigas. Mas, de perto. Na pele.

Caso receba esta, pela via criticada, e quiser um ignorante colega, é só dizer. Permita-me encerrar como você (lá vem o “como”).

Abraço de Hipólito Fialho.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
terça-feira - 01/08/2017 - 18:33h
Política e autocrítica

Lanternas na popa


Por François Silvestre

No Brasil, até os protestos perderam a credibilidade e o efeito. Não há mais “a voz rouca das ruas”. Há os ouvidos moucos de esperança.

Ninguém ouve. E na internet uma briga de foice, sem foice. Pois é facílimo ser valente a distância. E os moderados são chamados de covardes.

Nenhum dos lados, no Brasil de hoje, tem legitimidade histórica.

Muita retórica de chavões. Clichês da esquerda e escarros da direita.

Ambas são lanternas na popa, que só iluminam as ondas que já passaram. Segundo a lição de Samuel Taylor Coleridge.

Dessa máxima, Roberto Campos tirou o título de suas memórias, fazendo autocrítica.

Só a esquerda e a direita, no Brasil, não fazem autocrítica.

Fazem trampolinagem, com a lanterna da proa apagada.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 30/07/2017 - 08:28h

Carta a um desconhecido ignorante


Por François Silvestre

Um aviso: Se você não é ignorante nem desconhecido, não leia esta carta. Caso a receba, não abra o envelope. Não é de boa educação ler correspondência alheia.

Difícil é a educação superar a curiosidade. Se não é destinada a você, contenha-se. Mesmo que você diga a si mesmo: “quem disse que eu quero ler essa bosta”?

Cumpra sua pose de destinatário equivocado e rasgue o envelope sem retirar a carta. Consegue? Duvido.

Esta carta não é para você. Ao lê-la, revela má educação. Não conhece nem cumpre as regras da civilidade na cultura das correspondências. Não se lê correspondência alheia. O que danado você tá fazendo? Tá lendo isso? É um maleducado!

Essa carta não é sua. É pra um desconhecido ignorante. Se chegou ao seu endereço, foi equívoco dos Correios. Ou resultado da greve dos carteiros. Portanto, não leia.

A menos que você não saiba ler. Aí pergunte ao carteiro furador da greve, do que se trata. E se ele souber ler, vai dizer que não pode fazê-lo, pois não é um ignorante desconhecido.

Essa carta, missiva dos tempos outros, destina-se apenas e tão somente aos ignorantes. E ainda por cima se estiverem por baixo.

Você é ignorante? Se sim, continue lendo. Você já esteve por cima? Se sim, continue lendo. Você agora está por baixo? Se sim, continue lendo.

Você não é ignorante? Se não, vá ler outra coisa. Você nunca esteve por cima? Se não, vá ler outra coisa. Você sempre esteve por baixo? Se sim, tá perdendo seu tempo.

Você acredita em jornal? Se sim, continue lendo. Você acredita em político? Se sim, continue lendo. Você acredita em justiça? Se sim, continue lendo. Você acredita em mula sem cabeça? Se sim, leia e releia.

Você não perde tempo com besteira? Se não, por que tá lendo isso?  Você perde tempo com besteira? Se sim, pode abrir o envelope, talvez a carta seja pra seu vizinho. Todo vizinho é meio estúpido, né não? Então jogue essa carta no seu (dele) quintal.

Pus o “dele” entre parênteses porque talvez seja você o vizinho estúpido do outro vizinho menos bocó. Basta perguntar se ele leu isso. Se ele tiver lido, vocês se merecem. Se não, o bocó é você.

Pois bem. Gastei tanto tempo tentando localizar um destinatário que se nivele ao remetente, que quase não sobrou espaço para o assunto da carta.

Se você quer saber o assunto é sinal de que abriu o envelope e tá lendo. Ou não? Tantantantaaamm!

O assunto é uma graninha por fora. Não se assuste. Nada de telefone. Nem de e-mail. Nem encontro à noite. Mesmo que você seja chegado num encontro noturno.

Vamos conversar pessoalmente.

Diga ao Temer, pessoalmente, que não receba mais seus amigos bandidos no Jaburu. Venham pra cá. Aqui temos triturador de voz, fala todo mundo ao mesmo tempo; não há gravador ou perito que consiga separar as falas.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Crônica
  • Repet
sábado - 29/07/2017 - 09:45h
Ditadura

Juízes federais são condenados. Na Argentina!


Por François Silvestre

Juízes Federais condenados na Argentina. Recebo de Laurence Nóbrega texto informando a condenação de quatro juízes federais à prisão perpétua, por crimes contra a humanidade.

Os crimes dizem respeito à conivência com a Ditadura Militar que devastou a democracia no país vizinho.

Contemporânea, e de menor duração, com a MESMA Ditadura Militar que devastou as liberdades fundamentais no Brasil. Lá, até os colaboradores são condenados.

Aqui, não se condenam nem os torturadores. E o pior, vez ou outra vemos “operadores do Direito” defendendo esse passado nojento. E alguns até pedindo o retorno. Coisa da venezuelona brasilis.

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Categoria(s): Artigo / Opinião
domingo - 23/07/2017 - 09:44h

Aqui, à tarde


Por François Silvestre

Essas mal traçadas linhas, no bico de pena do computador, olhando para a Pedra Rajada. A mesma que avistei ainda menino na primeira vez que subi a Serra, com noção rudimentar das coisas.

Na garupa do cavalo Petróleo, preto mesclado de branco, sob o comando do padre Alexandrino Suassuna de Alencar. Nem lembro qual era o meu tempo de vida. Com certeza, antes dos oito anos. Pois que com essa idade, eu vi seu corpo inerte, estirado num velório improvisado na casa da minha avó.

Minha avó. A memória mais suave, alegre, feliz, vestida de flores, banhada de vida, que o regresso à infância consegue me levar.

A lembrança do padre, tio e pai adotivo, é confusa. Misto de admiração, afeto e medo. Relação de uma criança peralta com um pai ciclotímico. Ora, de agasalho afetuoso. Ora, de rigorosa punição. Havia na parede da sua biblioteca uma palmatória, chamada Vitória, que impunha pavor.

A casa da minha avó era o paraíso. E eu o Adão inexpulsável. Um quintal de frutas e flores. Uma casa vasta, que ela imitava, em Martins, sua casa de jovem em Maranguape.

Filha de um Juiz do Exu, João Antunes de Alencar, aqui ficada por acerto de casamento com um filho de Bisinha Suassuna. Juntava-se aí o sertão de Pernambuco, do Exu; o da Paraíba, de Catolé do Rocha; com a Chapada do Apodi, Gomes e Pintos espalhados pelas Serras do Martins e Portalegre.

Mas não é de genealogia que esse texto trata. Tenta tratar, se possível, desta tarde daqui defronte da Pedra Rajada.

Não defronte do Promontório da Lucárnia onde, nas águas de Antemusa, reinavam Agláope, Teossíope e Partênope, as líderes Sereias encantadoras dos navegantes.

Apenas no amparo de uma tarde modorrenta, como assim definiu Cláudio Santos, ao dizer do medo de enfrentar as tardes. Para quem não teme tormentas, acho que foi uma desculpa para descer a Serra.

Pois bem. Estou defronte da Pedra Rajada. Vista do Mirante Mãe-Guilé, cujo nome tenta aproximar pela paisagem a inimitável figura da avó. A inapagável imagem resistente de uma criança esperneante da memória.

Na pedra chapada sobre a grota veem-se duas figuras de compleição humana. Uma de perfil, serena, cuja mancha preta das águas, ao longo dos séculos, lhe ornamenta uma vasta cabeleira. Outra, acima e à direita, mostra um rosto sofrido, com olhos macerados, parecendo tortura.

A imaginação popular diz que são figuras do Cristo. E que a dificuldade de identificá-las acusa impureza no observador. Muitos se apresam na identificação, como os conselheiros daquele rei que exigia admiração por uma roupa inexistente.

Nessa escrita, chega gente de longe. Uma família de Cajazeiras, com parentes de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. O chefe do clã fala alto: “Quero ver se daqui se vê luzes de treze cidades. E comer galinha caipira com arroz de puta-rica”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Crônica
domingo - 16/07/2017 - 08:52h

Lua, aluados


Por François Silvestre

Nos dois extremos, plenilúnio e novilúnio, intermediados pelos quartos, em que um cresce e outro atrofia, a lua é muito mais do que um satélite. Na poesia, serve a todos os encantos e abastece todas as tristezas.

Na astronomia ela é o regulador da Terra. O Sol é nossa única fonte originária de energia, mas é a Lua que regula marés, estações e ciclos. Sem a órbita e gravitação da Lua, a Terra desandaria.

E os aluados? São pessoas distintas. Não necessariamente doentes, ou deficientes. Muitos deles são saudáveis esquisitos. Aliás, mais saudáveis e úteis do que a maioria dos “normais”.

Seu Justino Cocada era um pequeno comerciante, de uma família do Seridó, cujos primeiros representantes aqui chegaram para animarem a festa da Padroeira. Eram músicos. Muitos não voltaram. E criaram raízes na Serra.

O Maestro Benbem Dantas, Cocada de Cruzeta, disse-me certa vez: “Os Cocada subiram a Serra pra fazer Martins mais doce”.

Seu Justino possuía uma pequenina loja, onde vendia de tudo. Até agulhas de máquina de costura. Chega Margarida de Jessé e pergunta: “Tem agulha de máquina, seu Justino”? O velho ranzinza nem responde. Põe no balcão duas caixinhas de agulhas, exatamente iguais. E informa: “Dessa aqui é duzentos réis e dessa outra é quinhentos réis”.

A cliente indaga. “E num são iguais”? Ele responde: “São, mas uma é de compra antiga e a outra é de compra nova”.

A honestidade dele não fez escola no Brasil. Coversando com amigos na Praça da Matriz, Seu Justino ensinava: “Essa história de que a Terra se move é mentira. Se assim fosse, eu levantava de madrugada e pegava café barato, quando São Paulo passasse por aqui”.

Sobre a lua, ele afirmava: “Outra besteira é dizer que a lua é quase tão grande quanto a Terra. Quando ela tá cheia é do tamanho de uma urupemba”.

Rui de Zé Amorim era considerado um aluado. Sem instrução, dotado de inteligência rara. Possuía um talento de dizer o dia da semana quando alguém lhe informava uma data. Dia 24/08/54, morte de Vargas. Ele pensava, fazia contas e sapecava: “Terça-Feira”. Era batata.

Zé Amorim criava porcos.  Vendia aos feirantes. Certa feita, numa dessas vendas, o dono dos porcos caminhava com o comprador, na direção do chiqueiro, com Rui caminhando atrás. Dizia Zé: “Os porcos foram criados com milho, só. Carne pesada e boa, só milho”. E Rui calado.

No negócio de preços, Bento Augusto refugou. Zé Amorim sustentou o pedido. “Num tiro um tostão, só comem milho, ou isso ou os porcos ficam”. Aí Rui se meteu: “O sinhô venda essas pragas, que minhas costas num aguentam mais de carregar jitirana pra eles”.

Numa manhã, indo ao curral, Zé Amorim vê Rui masturbando-se. Postou-se na frente e perguntou: “O que é isso, Rui”?

Rui, de olhos vidrados, respondeu: “Saia da frente que a bicha bota longe”. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Crônica
quinta-feira - 13/07/2017 - 16:32h
Moro e Lula

Cuidado com os deuses


Por François Silvestre

Não sou petista, não sou lulista, não sou fascista! Armando Marques, juiz de futebol, agregou notoriedade ao expulsar Pelé. Tempos depois declarou que a expulsão fora um excesso. Será Lula o Pelé de Sérgio Moro? Pois é.

Lula fica expulso de campo, nas próximas eleições, com essa condenação. Impedido de exercer cargo público por Dezenove anos. Só poderá exercer cargo público após completar Noventa e Um anos.

Ora, doutô Moro, o sinhô disse que não o prenderia para evitar comoção pública. E essa decisão do cargo público, evita imbecilização pública?

Só um povo imbecil terá dúvida de que Lula atravessou a fronteira da lisura pública e que o doutô Moro atravessou o terreno da serenidade jurídica.

Lula foi ontem o deus da política. Moro é hoje o deus da justiça. Não gasto reza com nenhum dos dois, nem lhes dobro os joelhos. Repito: Corrupção é uma desgraça, que rouba o patrimônio do povo. Fascismo é uma desgraça, que rouba a vida o povo.

Os petistas condenam o fascismo das provas ilícitas contra os seus, mas aceitam as mesmas provas contra os adversários. E os adversários agem do mesmo jeito, invertendo argumentos.

O Brasil está lamentavelmente sendo banhado de fascismo, com sabonete falsificado de ética. À direita e à esquerda.

Vítima?

O povo, inculto e belo…

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Categoria(s): Artigo / Opinião / Política
quarta-feira - 12/07/2017 - 20:18h
Opinião

O estrelato da papa-ceia


Sérgio Moro e Lula num momento histórico de um país que parece infindável na dor (Fotomontagem)

Por François Silvestre

É o planeta Vênus, quando aparece no fim da tarde. Hora da ceia matuta. Na madrugada é a “estrela Dalva”. Sem ser estrela. O Juiz Sérgio Moro declara-se avesso ao estrelato. Será?

Teve todo o tempo do mundo para julgar Lula, antes do julgamento de Temer. Ou deixar para julgá-lo depois. Não.

Sentiu-se ofuscado pelo julgamento de Temer e quis entrar no fuzuê da mídia. Desprezou oportunidade e conveniência. Preferiu o oportunismo do estrelato. Não entro no mérito da decisão. Não gosto de Lula. Que é também um papa-ceia.

Mas o próprio Moro confessa a malandragem, ao dizer que não prende Lula para evitar comoção pública. Sentença de primeira instância não prende ninguém. E prisão preventiva teria que ser anterior.

É a primeira vez que vejo um Juiz justificar-se na própria sentença.

É isso aí.

Estrela Dalva na madrugada e papa-ceia no fim da tarde.

Não me dói o coração, permita-me o poeta espanhol, é o Brasil que me dói.

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Categoria(s): Artigo
segunda-feira - 10/07/2017 - 14:14h
Opinião

Hierarquia do mal


Por François Silvestre

Sim, há hierarquia do mal.

A corrupção é uma desgraça, mas o fascismo é desgraça maior.

Palocci não vale nada, mas Bolsonaro é pior.

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Categoria(s): Política
domingo - 09/07/2017 - 11:02h

Beber o defunto


Por François Silvestre

Havia um hábito nada mórbido, pois festivo, em alguns lugares do Nordeste, de transformar o velório numa comemoração.

Chamava-se beber o defunto. Na Bahia, principalmente, descendo do Recôncavo até o Raso da Catarina. Era uma prática que imitava um costume mexicano, que faz do sepultamento uma festa. E transforma o dia de finados num evento de louvação da vida, e não chorumela da morte.

É bem verdade que, no mesmo Nordeste, principalmente na Zona da Mata, e fronteiras de Pernambuco, o velório era um evento choroso e chato, com carpideiras compradas para prantear o morto. E aí se compensava a hipocrisia de parentes que se viam livre do defunto, ou que receberiam bens e dinheiro do inventário.

Geralmente com as frases prontas, que a velha fornalha hipócrita tostava de falsa saudade: “Foi um descanso para ele”. “A vida continua com sua memória”. As carpideiras choravam as incelenças, enquanto nos cantos da casa escolhia-se o inventariante.

Por que de Pernambuco à Bahia? Porque era a área mais próspera do Nordeste. Aqui no Rio Grande do Norte, fora algumas exceções, cada defunto nem merecia carpideira ou enganação. Se era boa praça, de família pobre, os parentes choravam de vera. Se não prestava, carregavam pra cova em silêncio, por respeito aos vivos.

Não precisavam de carpideiras nem de festejo. Defunto sem herança já ia tarde. Ou como diria Zé de Estevão, “dane-se amadiçoado”.

Outra prática comum é o anedotário em que se transformam os velórios. Com prevalência das anedotas de português e papagaio. Dizem as línguas mais ácidas que algumas dessas estórias fazem ri até o finado.

Já contei aqui um episódio acontecido em Tangará, nos tempos áureos da liderança de Theodorico Bezerra. O Majó encarregou um assessor para representá-lo no sepultamento de um cabo eleitoral.

Dias depois, o Deputado Theodorico, que estava no Rio de Janeiro, recebeu do assessor um telegrama. “Missão cumprida vg velório muito produtivo pt”.

Ainda acontecia, ou acontece, casos de inveja de vizinhas com viúvas jovens e bonitas. No velório de Tomás Tertulino, fazendeiro que deixou a jovem viúva rica, ouvia-se as lamúrias de dona Arcanja, invejosa vizinha: “Essa aí num vai deixar nem o finado esfriar”.

Ano passado, cá no Martins, um velório ímpar. Velava-se uma senhora, numa sala simples. Seu neto choroso ao lado do caixão. Nisso, param dois homens numa moto. Invadem o ambiente e fuzilam o neto da defunta.

Correria e confusão. A polícia chega e não deixa mexer em nada. Era esperar a perícia de Mossoró. Encostaram o caixão velado na parede, ficando o corpo “novo” estirado num riacho de sangue e o da finada, num canto, agasalhado de solidão.

O texto é apenas um relato suave, diante do noticiário político/policial dos tempos atuais.

mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
domingo - 02/07/2017 - 10:22h

A janela de Jacinta


Por François Silvestre

Januário nunca se conformou. Depois de dez anos de namoro, dois de noivado e quarenta e cinco de casamento, no que lá se vão quase sessenta anos, ele não conseguiu acostumar-se.

No começo do namoro, anos Cinquenta, era até um bom arranjo. Não fosse aquela mania, mais difícil teria sido conhecer ou aproximar-se de Jacinta.

O pai da moça, coletor de rendas, não dava trela. Sua mãe, dona Fátima, tinha a língua mais temida do lugar. Chegar perto de Jacinta era sonho de muitos daqueles rapazes.

Januário, vulgo Jojoba, era beque da Seleção da Cidade. Domingo com futebol virava festa, se o time recebesse o visitante. Quando a Cidade ia jogar fora, os Domingos ficavam sem graça.

Não havia campeonatos. Só amistosos, que quase sempre terminavam com muito bofete e olhos roxos. O árbitro voltava do campo, quase sempre, mancando ou desfeitado.

Juiz da comarca ganhava pouco e promotor menos ainda. Vereador não tinha salário e prefeitura não era viúva alegre. Polícia impunha respeito e bandido era minoria.

À tarde, o jogo. Porém, desde cedo os jogadores já se vestiam a caráter. Terminada a missa do Domingo, a praça enchia-se. Os titulares desfilavam de bicicleta, ao redor da praça, de camiseta, calção, meiões e chuteiras.

Se aparecia na Cidade um visitante, a serviço ou de férias, e soubesse jogar, seria escalado. Mas era segredo absoluto. Pois um time enxertado não legitimava a vitória. “Só ganhou porque tinha enxerto”, diziam os adversários.

Um desses enxertos, Vicente de Macaíba, trazido por Zé de Ossian, fez sucesso da Cidade. Até Jacinta andou de quebrantos por ele. E ele por ela. Um galego alto, lazarino, andava sem tocar os calcanhares no chão. Goleador.

“O time deles tava enxertado”. Disse o treinador de Alexandria, após sofrer uma goleada de três a zero.

Para sorte de Jojoba, um dia Vicente se mandou. Jacinta voltou os olhares para o craque de casa, que não faz milagre nem gol, mas está à mão.

Da janela, Jacinta fez sinal. O primeiro encontro deu-se na quermesse da barraca do Azul, apesar de Januário ser torcedor do Encarnado. Sua emoção foi tal, que o azul avermelhou-se. Ao toque das mãos o tremelico em cima e o tição de fogo embaixo.

Em Jojoba, até hoje, foi sempre paixão. Esmorecida é verdade, mas suficiente para disputar com a janela a preferência de Jacinta. Nesses anos todos, desde o namoro, Jacinta passa suas tardes ali, com os braços na soleira, de olhos na praça.

O nome foi homenagem da mãe a uma das crianças que viram a virgem na Cova da Iria, em Fátima, no Concelho de Ourém. Contrário dela, Jacinta nunca se teceu da vida alheia. Mesmo sendo vítima das línguas enciumadas. Desde os tempos de Vicente de Macaíba.

A janela inferniza o ciúme de Januário. Toda noite, espera pacientemente o sono hospedar Jacinta. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Crônica
  • Lion, Moda Masculina, de João Paulo Araújo - 11-08-15
quarta-feira - 28/06/2017 - 21:18h

A excrescência do obsoleto


Por François Silvestre

A discussão (veja AQUI) de ébrios dos senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Garibaldi Filho (PMDB-RN), num nível que envergonha qualquer câmara de vereadores, prova e comprova o que venho dizendo há muito tempo: O senado é uma excrescência da nossa federação.

Tão útil quanto é real a federação.

Sua função constitucional é defender a federação inexistente. E ela inexiste também por conta de não ter defesa eficiente. O senado não serve e desserve. É um céu para ilustres vagabundos.

Local de arquivamento de excelsas nulidades.

Só não merece desprezo porque custa muito caro ao pobre bolso do povo. Portanto, não se deve desprezar.

Deve-se cuidar do seu fim. Da sua extinção. Para o bem da Democracia.

O sistema legislativo de um país de povo pobre há de ser o sistema unicameral. Uma Assembleia Legislativa Nacional.

Senado é coisa de monarquia ou país rico. É farra de inúteis.

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Categoria(s): Artigo / Política
domingo - 25/06/2017 - 20:55h

Involução do pensar


Por François Silvestre

O pensamento filosófico, que nasceu agregado ao conhecimento científico, foi a primeira rebeldia da descoberta. Do intelecto impondo a luz para romper as trevas.

A cada descoberta de uma verdade nova, uma dúvida era vencida; e um deus abatido em pleno voo caía aos pés do caçador. Assim mesmo, dessa luta temporal entre a sombra e a luz. Uma luta de complementação, não de confronto, como o fazem os pintores.

De início, consciente da ignorância, o homem começou a identificar os sinais da ciência. Num embate em que a dúvida nascia da angústia e desaguava na descoberta.

A ciência é da essência natural, independe da perquirição humana. Porém, foi pela filosofia que o homem enfronhou-se no tecido cognitivo do misterioso mundo científico. Desfraldando a bandeira do conhecimento pelo aceiro da sua franja.

Da lição inesquecível de Teilhard de Chardin: “Deslocar um objeto no tempo, para trás, equivale a reduzi-lo aos seus elementos mais simples. Seguidas tão longe quanto possível na direção da sua origem, veremos que as últimas fibras do composto humano confundem-se com o próprio estofo do Universo”.

Chardin, padre e filósofo, perseguido pela intransigência canônica da sacristia, veio da origem filosófica de Aristóteles, e fez conexão de voo com Thomaz de Aquino. Todos construtores em cadeia, numa corrente de elos presos pela sabedoria do invisível. A invisibilidade infinita de cognição quase inalcançável, na presença universal do Cosmo.

Para Thomaz de Aquino o Universo é criação de Deus. Para Teilhard de Chardin o Universo se cria, sob a regência de Deus. E continua sob permanente autocriação. No contorno de um invólucro infinito; “sistema” pela multiplicidade, “totum” pela unidade e “quantum” pela energia.

Para os filósofos clássicos, de onde vem Aristóteles, o conhecimento é a própria criação. Dado que no escopo do conhecer pode-se aferir que até os macacos intuem que o “conjunto das bananas maduras é menor do que o conjunto das bananas”.

O primeiro conceito da palavra Deus, do protosemitico ao sânscrito, não significa aquele que cria, mas aquele que fala. “O princípio era o Verbo”…

Nós evoluímos em tecnologia, no último meio século, mais do que nos últimos quinhentos anos. Contudo, involuímos intelectualmente mais de um milênio.

Vivemos o tempo da involução pensante. Enquanto as máquinas que criamos aprimoram-se, o nosso cérebro criador regride. Tempo de embrutecimento humano, pobreza cultural, imbecilização política, feiura esportiva.

A ausência do pensar filosófico, dos tempos de hoje, implantou o reino da mediocridade. O convencimento foi substituído pela imposição. A vocação deixou de ser um impulso do talento para acomodar-se às cobranças do mercado.

Os filósofos medicaram a humanidade contra a estupidez, mas o medicamento perdeu a validade. Urge nova drogaria na caverna de Platão. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Artigo
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domingo - 18/06/2017 - 11:06h

A escola da vida e “a dança das cadeiras”


Por Marcos Pinto

O  tempo  deixa  perguntas, mostra  respostas  e traz  verdades“.(François  Silvestre).

O  enfrentamento  aos  desafios  cotidianos  impõe-nos  a  certeza  de  que  temos que  nos  escudar  em  fatos  oriundos  de  experiências  concretas, que   nos  levam  a   transpor  o  limiar da porta  da  ”Escola  da  Vida”, adentrando-a  de  rijo.   É determinante  a  assertiva de  que as experiências    acumuladas fornecem  subsídios  eficazes  para escapar da   perspectiva  de resultados  desgastantes  e totalmente  divorciados  da  vitória tão  almejada.

Há  sempre  uma  contenda  voraz   entre  o  que  pensamos   e   as  nuances  do  porvir.  Não  adianta  se  deixar  dominar   pela   fugaz  ilusão  de  que  não  haverá  um  brutal  e  massacrante  enfrentamento  a  todos  os  tipos  de dificuldades,  desapontamentos, ingratidões  e  injustiças.

O  simples  fato  de se  ter  e  de  se  ostentar  o   “Diploma  da  Vida”   tutelado  pelas   decisivas  experiências  vividas  não  lhe  confere   a  certeza  de  estarás  imune  aos  virulentos  ataques  dos  invejosos  e  pérfidos, sempre  prontos  para  assumir  o  controle  das  ações, derivando-a  para  uma  vitória  sem  louros  nem  glórias.

Nesse  diapasão  materialista  e  asqueroso, há  um   agitação  constante  na  coreografia  desgastante  da  ”Dança  das  Cadeiras”, sob  um  eco  ensurdecedor  da  desconfiança  e  do  descrédito.  O  pior  reside  na triste  constatação  de  que  pessoas com  maior  vínculo  sentimental  forjam  nos  bastidores  da  inveja  e  da  sordidez   toda  sorte  de  maldades, com fito  único  de  nos impor  restrições  aquisitivas.

Agrava-se  com  o  fato  de  que, raramente, essas  pessoas  invejosas  não  apresentam  contendas  íntimas  de  remorsos, pela  virulência  e  maldade  destiladas  de  forma  vil  e  covarde.

Observa-se,  com  veemência, nos  olhares  indagadores  dos nossos  circunstantes, que  há  uma  certa  impaciência  generalizada, exercendo  sobre  nós  uma  mistura de   medo  e  fascínio.   O  poder  de  mando  sobrepuja  as  virtudes  presentes  no  ser   humano, deixando  escapulir  pelas  frestas  da janela  do  tempo  a  certeza  de  que  só   Deus  detém  o  poder  eterno  e  sem   máculas.

Assiste  a  plenitude  da  razão  ao  saudoso  poeta  Apolônio  Cardoso, quando  cunhou  a  célebre  frase: “De  tanto  ver  os  burros  mandando  nos  homens  de  inteligência,  às  vezes  fico  a  pensar  que  burrice  é  uma  ciência”. Tal  realidade  traz  embutida  um  asco  imensurável.

Deus  é  infalível  na  coreografia  da  ”Dança  das  Cadeiras”.  Hoje,  Chefe.  Amanhã  subordinado  ao qual  humilhou  amargamente.   A  boa  receita  divina  inclui  controle  da  vaidade  e  da  ansiedade.  Assoma-me,  outra  vez, a   sentença  de  que  a  cordialidade  interativa  sempre  emoldura  um  demorado  adeus.

Delineia-se  o   perfil  dos  ocupantes   na  ”Dança  das  Cadeiras”, a  maioria  procurando  sair-se  com  anel  de  ouro  em  tromba  de  porco, chafurdando  na  lama, mas  brilhando  como  se  limpo   fosse.  Há  pessoas  que,  fora  de  sua  função, guarda  mais  alívio  do que  saudade.

Hoje, assume-se  mais  obrigações  com  frivolidades, fragilizando-se  pelos  açoites  da  alma  doentia.  Predomina  um  estado  de angústia  diante  o  incerto  porvir.  Recuso-me  a  perlustrar  a  pequenez  do  espaço  mundano.

Marcos Pinto é advogado e escritor

Categoria(s): Artigo
domingo - 18/06/2017 - 09:12h

Justino


Por François Silvestre

Dos recrutas da Bateria de Serviços, do regimento de Obuses, naquele ano do serviço militar, um merece destaque pela compleição humana antagônica a qualquer fisionomia de enquadramento militar.

Analfabeto, indisciplinado, desligado. Até no andar ele negava a “elegância” militar. Andava balançando-se. O que o fez ganhar o apelido de “Carnaval”.

E assim era chamado, até pelos superiores. Justino passou mais tempo hospitalizado ou preso do que no serviço regular.

Gonorreia, cavalo de crista, cancro. Ou prisão, pelas voadas nos dias de guarda ou reforço à noite. Usuário de maconha, numa época em que o baseado criava estigma. Ser chamado de maconheiro produzia briga na certa.

Tudo isso numa personalidade quase infantil. Sem qualquer resquício de culpa.

Expulsá-lo seria a confissão de má avaliação no recrutamento, coisa que traria mais problemas para o comando do que para o recruta mal avaliado. A expulsão cria uma mácula para o comandante, que o atormentará pela vida e prejudicará suas promoções. Só isso pode explicar a permanência de Justino até fim do serviço militar.

O sargenteante, Serafim, descobriu que “Carnaval” não sabia cantar o Hino Nacional. Encarregou a nós, recrutas da BS, para ensiná-lo. Tentamos, em vão.

Diante disso, orientamos para que ele ficasse apenas mexendo os lábios, nas formaturas. Numa dessas, Serafim aproximou-se de Justino e descobriu o engodo.

Chamou-o à sargenteação. Mandou-o cantar o hino. Saiu algo mais ou menos assim: “Ouviro no ipiranga um povo retumbante”. O sargento, irado, mandou parar. “Aqueles bostas nem pra isso servem”. Referia-se a nós.

Foi aí que Justino perguntou: “Sargento, o qui danado é retumbante”? Serafim quase tem um infarto.

Num serviço de cortar mato, eu fui atingido por um recruta. Usávamos a estrovenga para cortar o capim. Uma espécie de enxadeco invertido, com a Lâmina para frente, ao contrário da enxada.

Num giro desastrado, Vanildo girou a estrovenga que me cortou o ombro direito e me abriu um talhe na cabeça. Cai sangrando. Aperreio do próprio recruta e do Sargento.

Levado para o Hospital Universitário, (Onofre Lopes) os cortes foram suturados. Daí fui para o HGuN, Hospital da Guarnição de Natal, vizinho do 16/RI.

Numa enfermaria, com recrutas de todos os quartéis, quem estava lá? Justino. À noite, ele fugia pros lados do Bosque dos Namorados, fazíamos a vaquinha para comprar cigarros. E maconha pra ele.

Numa dessas noites, ele não voltou. Por volta das nove horas da manhã, confusão no Hospital. Era Justino que chegava dirigindo um ônibus da linha Alecrim/Santos Reis. Ele disse que estava ajudando um colega doente.

Numa das paradas, sobe o Cabo Damasceno, da nossa Bateria. O cabo o prendeu e mandou que ele levasse o ônibus para o HGuN. Com reclamação dos passageiros. Mais uma vez Justino na prisão. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Crônica
  • Repet
sexta-feira - 16/06/2017 - 07:28h
Por François Silvestre

Wilma de Faria – uma crônica vitoriosa


Por François Silvestre

Disse um poeta, na sua lira, que “a morte não separa ninguém, quem separa é a vida”. Soube ainda de madrugada, pela Coluna do Herzog, de Carlos Santos, do falecimento da ex-Governadora Wilma de Faria.

Veio-me à memória um episódio da campanha para o Governo do Estado em 2002, em que ela foi candidata e vitoriosa.

Wilma: no palanque, governadora, em 23-07-06 (Foto: arquivo)

Dormimos em Martins, e após o café da manhã em Cajuais da Serra, descemos para uma movimentação em Umarizal. Fomos no meu carro, em cujo trajeto eu alertei para possíveis reações negativas contra ela. Wilma disse: “Não se preocupe. Estou acostumada”.

Faríamos uma caminhada pela feira e, se possível, um comício. A feira de Umarizal espalha-se por vários lugares da cidade. A primeira parada foi na feira da Rua Nova, onde há um pequeno mercado de carnes e vendedores ambulantes de cereais e legumes. Além de bancas com bebidas e comidas. Tem de tudo.

Ao descermos, caminhamos para o meio do burburinho. Aí, minha surpresa. Até pessoas que diziam não votarem nela trataram-na com gentileza. Ela foi cumprimentando as pessoas e o aglomerado aumentando.

A coordenação da campanha entendeu que a ocasião se prestava a um comício relâmpago. Os candidatos, inclusive a senador, Ismael Wanderley, decidiram que só falaríamos Wilma e eu. Não havia palanque.

Um feirante ofereceu sua camioneta, com sacos de feijão, para substituir o palanque. E assim foi. Não poderia haver um palanque mais sertanejo. Em cima do feijão, na feira de Umarizal, falamos Wilma e eu.

Tempos depois, ela me disse: “Foi um dos momentos mais bonitos da campanha”.

Que lhe seja leve a terra da sua terra!

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Categoria(s): Crônica / Política
terça-feira - 13/06/2017 - 21:56h
"Beleza?"

Falta respeito, Robinson!


Por François Silvestre

O governo Robinson Faria (PSD) não tem um milímetro de respeito pelo servidor do Executivo, que ele chefia e humilha. Todo mês tenta esconder o inescondível. Isto é, a inadimplência com o servidor.

Não precisava, se houvesse respeito, divulgar essa cretinice de parcelamento, inconstitucional, fora da Lei, com a cavilação safada de percentuais (veja AQUI).

Fizesse a merda sem expor o mau cheiro. O único percentual confiável é de um governo cem por cento inútil. E velhaco, com o servidor a quem prometeu respeito no discurso de posse.

Lembra, Robinson, do discurso de posse?

Eu me lembro muito bem. E você sabe que eu me lembro.

“Beleza”?

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Categoria(s): Artigo / Só Pra Contrariar
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