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domingo - 16/07/2017 - 08:52h

Lua, aluados


Por François Silvestre

Nos dois extremos, plenilúnio e novilúnio, intermediados pelos quartos, em que um cresce e outro atrofia, a lua é muito mais do que um satélite. Na poesia, serve a todos os encantos e abastece todas as tristezas.

Na astronomia ela é o regulador da Terra. O Sol é nossa única fonte originária de energia, mas é a Lua que regula marés, estações e ciclos. Sem a órbita e gravitação da Lua, a Terra desandaria.

E os aluados? São pessoas distintas. Não necessariamente doentes, ou deficientes. Muitos deles são saudáveis esquisitos. Aliás, mais saudáveis e úteis do que a maioria dos “normais”.

Seu Justino Cocada era um pequeno comerciante, de uma família do Seridó, cujos primeiros representantes aqui chegaram para animarem a festa da Padroeira. Eram músicos. Muitos não voltaram. E criaram raízes na Serra.

O Maestro Benbem Dantas, Cocada de Cruzeta, disse-me certa vez: “Os Cocada subiram a Serra pra fazer Martins mais doce”.

Seu Justino possuía uma pequenina loja, onde vendia de tudo. Até agulhas de máquina de costura. Chega Margarida de Jessé e pergunta: “Tem agulha de máquina, seu Justino”? O velho ranzinza nem responde. Põe no balcão duas caixinhas de agulhas, exatamente iguais. E informa: “Dessa aqui é duzentos réis e dessa outra é quinhentos réis”.

A cliente indaga. “E num são iguais”? Ele responde: “São, mas uma é de compra antiga e a outra é de compra nova”.

A honestidade dele não fez escola no Brasil. Coversando com amigos na Praça da Matriz, Seu Justino ensinava: “Essa história de que a Terra se move é mentira. Se assim fosse, eu levantava de madrugada e pegava café barato, quando São Paulo passasse por aqui”.

Sobre a lua, ele afirmava: “Outra besteira é dizer que a lua é quase tão grande quanto a Terra. Quando ela tá cheia é do tamanho de uma urupemba”.

Rui de Zé Amorim era considerado um aluado. Sem instrução, dotado de inteligência rara. Possuía um talento de dizer o dia da semana quando alguém lhe informava uma data. Dia 24/08/54, morte de Vargas. Ele pensava, fazia contas e sapecava: “Terça-Feira”. Era batata.

Zé Amorim criava porcos.  Vendia aos feirantes. Certa feita, numa dessas vendas, o dono dos porcos caminhava com o comprador, na direção do chiqueiro, com Rui caminhando atrás. Dizia Zé: “Os porcos foram criados com milho, só. Carne pesada e boa, só milho”. E Rui calado.

No negócio de preços, Bento Augusto refugou. Zé Amorim sustentou o pedido. “Num tiro um tostão, só comem milho, ou isso ou os porcos ficam”. Aí Rui se meteu: “O sinhô venda essas pragas, que minhas costas num aguentam mais de carregar jitirana pra eles”.

Numa manhã, indo ao curral, Zé Amorim vê Rui masturbando-se. Postou-se na frente e perguntou: “O que é isso, Rui”?

Rui, de olhos vidrados, respondeu: “Saia da frente que a bicha bota longe”. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. jb diz:

    E por falar em aluado lembrei disto:”"Um correligionário de Bocaiúva, meio lelé da cuca, sem eira nem beira, vai ao gabinete do ministro, ainda no RJ, onde lhe pede uma inusitada colaboração. – Dr. Zé Maria, eu quero ir à lua e preciso da ajuda do senhor, diz o visitante. – Isto não é problema, diz Alkmin, dando asas à imaginação do conterrâneo. Dou-lhe o apoio, de ministro e correligionário. Existe um pequeno e contornável problema, que é de definição, e só depende do amigo. E Alkmin continua: – Você sabe que há quatro luas : nova, crescente, minguante e cheia. Agora, compete a você escolher qual das luas o nobre amigo deseja visitar, pois o apoio está dado. Diante de um atônito conterrâneo, o ministro levanta-se da poltrona, estende a mão para a despedida e afirma, olhando no fundo dos olhos do eleitor : – Me procure, novamente, quando definir!”Gaudêncio Torquato

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